Vereador do PT preso por suspeita de ligação com PCC pede afastamento do partido para focar na defesa

Vereador Senival Moura, investigado por ligação com PCC, se afasta do PT para se defender

O vereador de São Paulo, Senival Pereira de Moura, preso na última quinta-feira por suspeita de envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), solicitou formalmente seu afastamento do Partido dos Trabalhadores (PT) neste sábado. A legenda confirmou o pedido, informando que a decisão visa permitir que o parlamentar se dedique integralmente à sua defesa legal e evite que as investigações sejam associadas à imagem do partido.

Senival Moura é apontado pelas autoridades como uma figura central em um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. As investigações concentram-se na empresa Transunião Transportes S.A., que, segundo a polícia, teria sido utilizada para movimentar recursos da organização criminosa.

Em nota oficial, o diretório municipal do PT em São Paulo comunicou o recebimento do pedido de afastamento. A justificativa apresentada pelo vereador foi a necessidade de focar em sua defesa e de desvincular os recentes acontecimentos do partido. A informação foi divulgada em sábado, dois dias após a prisão do parlamentar. Conforme informações divulgadas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo.

Operação Última Parada investiga lavagem de dinheiro no transporte público

A prisão de Senival Moura ocorreu durante a Operação Última Parada, deflagrada para desarticular uma suposta estrutura utilizada para ocultar patrimônio e lavar dinheiro do PCC. A empresa de ônibus Transunião Transportes S.A. é o foco principal da investigação, suspeita de ser o veículo para essas atividades ilícitas.

Senival Moura está em seu sexto mandato consecutivo na Câmara Municipal de São Paulo. Atualmente, ele ocupa posições de destaque, sendo o primeiro-secretário da Mesa Diretora e presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica. Essa comissão é responsável por fiscalizar as políticas públicas do sistema de transportes da capital paulista.

Apesar de seu nome não constar formalmente no quadro societário da Transunião, as autoridades afirmam que mensagens, planilhas e documentos apreendidos indicam que o vereador exercia influência direta em decisões financeiras e administrativas da empresa. Ele era frequentemente identificado em comunicações internas por apelidos como “presidente”, “vêio” ou “velhinho”, conforme detalhado pelos investigadores.

Histórico de Senival Moura no setor de transportes remonta à década de 70

A ligação de Senival Moura com o setor de transportes é antiga, anterior à sua carreira política. Segundo os autos do processo, ele teria iniciado suas atividades ainda na década de 1970, operando linhas clandestinas de Kombi na Zona Leste de São Paulo. Nos anos 2000, ele se tornou um representante importante dos antigos “perueiros” durante o processo de regularização do transporte alternativo.

A transformação de cooperativas em empresas ocorreu após uma nova licitação do sistema de transporte municipal. Ao longo de sua trajetória política, Senival consolidou forte influência eleitoral em bairros como Itaquera e Artur Alvim, destinando emendas para projetos esportivos e melhorias locais. Seu irmão, Luiz Moura, também já foi alvo de investigações relacionadas ao crime organizado.

Caso teve origem em homicídio de ex-diretor financeiro em 2020

A investigação que levou à prisão de Senival Moura começou com o assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da Transunião, em março de 2020. A polícia já investigava desde 2022 a hipótese de que Adauto atuava como “testa de ferro” do vereador na empresa.

O Ministério Público aponta que integrantes do PCC suspeitavam que Adauto estivesse desviando recursos da empresa para um suposto “caixa dois” da campanha de reeleição de Senival em 2020, em detrimento dos repasses destinados à facção. Essa suposta quebra de confiança teria motivado um julgamento interno, conhecido como “tribunal do crime”, resultando na execução de Adauto.

Mensagens apreendidas em celulares reforçam a hipótese de participação do vereador em movimentações financeiras. Pagamentos informais de grandes quantias, incluindo repasses semanais de R$ 70 mil, dependeriam de sua autorização, segundo os investigadores.

Patrimônio e movimentações financeiras sob escrutínio

Investigadores identificaram planilhas internas onde Senival aparecia como “cooperado oficial” de pelo menos 13 ônibus da Transunião. Essa expressão indicaria o verdadeiro beneficiário econômico dos veículos, mesmo que os registros formais estivessem em nome de terceiros. Familiares e pessoas próximas ao vereador também são citados por suspeita de participação na ocultação de patrimônio.

Relatórios de inteligência financeira indicam que Senival movimentou aproximadamente R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Há uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos declarados oficialmente. Imóveis de alto padrão, como um apartamento na Vila Madalena e uma propriedade rural em Minas Gerais, são atribuídos ao vereador.

Defesa de Senival Moura alega inocência e surpresa com a prisão

Em nota, a defesa de Senival Moura expressou surpresa com a decretação da prisão temporária e negou qualquer envolvimento em atividades ilícitas. Os advogados afirmam que o vereador confia na Justiça e que a investigação demonstrará a inexistência de condutas ilícitas. A defesa busca acesso integral aos autos para apresentar os devidos esclarecimentos, garantindo o direito ao contraditório e à ampla defesa.

A defesa ressalta que Senival Pereira de Moura sempre pautou sua trajetória pública pelo compromisso com a população, transparência e respeito às instituições democráticas, e que recebe a investigação com serenidade, confiante de que a verdade prevalecerá. As conclusões apresentadas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil representam a versão das autoridades e serão submetidas ao contraditório judicial.

Limpatech