O Rio virou pauta no Washington Post. Isso diz muito.

Parte do Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Quando o Washington Post dedica uma reportagem de fôlego ao turismo no Rio de Janeiro, isso não é um elogio qualquer. É um sinal de que a cidade finalmente ocupou o lugar que sempre mereceu no mapa do turismo mundial.

A matéria publicada na semana passada pelo jornal americano traz um retrato que quem trabalha com turismo receptivo no Rio já sente no dia a dia. A cidade está em outro patamar. Em 2025, o Rio recebeu 12,5 milhões de turistas, sendo 2,1 milhões de visitantes internacionais, um crescimento de 44,8% em relação a 2024. Só isso já seria motivo de celebração. Mas o que o Washington Post captou vai além dos números.

O texto aponta uma mudança no perfil do turista que chega ao Rio. Não é mais só o viajante que quer Copacabana, Cristo Redentor e Pão de Açúcar e vai embora. O turista de hoje quer mergulhar na cidade de verdade. Quer entender a cultura, a história, a música, a gastronomia. Quer experiências que não cabem num roteiro de dois dias.

Isso é muito bom. E é também um desafio enorme.

O lado positivo é inegável. O turismo que cresce com qualidade gera renda, emprego e dignidade. Cada visitante que chega ao Rio e vai bem atendido, que sai encantado e conta para amigos e família, vale mais do que qualquer campanha publicitária. O boca a boca de um turista satisfeito atravessa fronteiras. E o Rio, quando quer, é absolutamente irresistível.

O crescimento que estamos vivendo agora, turbinado pela Copa do Mundo 2026 e pela visibilidade internacional que o Brasil ganhou nos últimos anos, é uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada. Estamos falando de 7,8 bilhões de reais gerados só pelo turismo internacional em 2025. Uma cifra que representa empregos reais, famílias sustentadas, negócios que crescem.

Mas o Washington Post também alerta. E é aqui que precisamos ser honestos.

A matéria levanta a questão da gentrificação nas comunidades. À medida que o turismo cresce em certas áreas da cidade, os preços sobem, os moradores originais são pressionados a sair e o que era autêntico começa a virar cenário. Esse é um risco real, que já aconteceu em outras cidades do mundo que não souberam gerenciar o crescimento turístico.

Há também a questão da infraestrutura. O Rio ainda tem gargalos sérios em mobilidade, saneamento e segurança pública que precisam ser enfrentados de frente. Um turismo que cresce sem estrutura para suportá-lo rapidamente se transforma em experiências ruins, avaliações negativas e reputação arranhada.

E tem o desafio da qualificação. O turista que chega ao Rio hoje é mais exigente, mais informado e mais conectado. Ele pesquisa antes, compara, avalia. Para atendê-lo bem, o setor precisa de profissionais capacitados, de serviços que entreguem o que prometem e de uma cadeia turística que funcione de ponta a ponta.

Trabalho com turismo receptivo no Rio há anos, e o que mais me preocupa não é o crescimento em si, mas a velocidade com que ele acontece sem o planejamento necessário. O turismo bem feito é uma das ferramentas mais poderosas de desenvolvimento que um destino pode ter. Turismo mal feito destrói reputação, expulsa moradores e deixa cicatrizes que demoram décadas para curar.

O Washington Post colocou os holofotes no Rio. Cabe a nós, que vivemos e trabalhamos aqui, garantir que o que esses holofotes iluminam seja algo do qual nos orgulhemos.

Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo

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