PMs e chefe do tráfico no Alemão: diálogos revelam acordos

UPP no Complexo do Alemão

Diálogos interceptados pela Polícia Federal mostram uma relação direta entre policiais militares da UPP Nova Brasília e o chefe do tráfico do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. As conversas revelam que os agentes combinavam ações com o criminoso para evitar prejuízos às atividades do tráfico local. A investigação faz parte da Operação Dakovo, deflagrada em dezembro de 2023.

O alvo principal das gravações é Fhillip da Silva Gregório, conhecido como Professor, apontado como líder do tráfico na comunidade. Os áudios, colhidos com autorização judicial em 2022, mostram que os PMs informavam o traficante sobre operações e mudanças no comando da unidade, além de aceitar pedidos como a retirada de blindados da favela.

Em um dos trechos, o comandante da UPP Nova Brasília avisa a Professor que será transferido de unidade, e que seu substituto manterá os acordos:

“Mano, queria te dar outro papo.”
“Pode falar, mano.”
“Vai trocar aí, vou lá pro Manguinhos. Vai assumir um major aí, mas gente boa, sujeito homem.”
“Caraca, é mesmo, mano?”
“Não queria ir, mas não tem jeito. Já vou chegar em Manguinhos com guerra lá. Só dor de cabeça.”
“Lá tá f…, mas eu falo com o dono de lá. Deixa esse na mesma sintonia com nós?”
“Quando passar o comando, vou passar tudo pra ele, já até falei com ele. Bagulho dele é um papo também.”
“Já é, mano. Aí tu deixa na sintonia.”
em diálogos obtidos pela Polícia Federal

Em outra conversa, o mesmo comandante elogia a gestão do tráfico feita por Professor, isentando-o de crimes cometidos por outros bandidos da região:

“Tua gestão é boa. O que te deixa mal são os roubos da Canitar, que vão cair tudo na tua conta. Mas eu tô ligado que não é você, só que pra te defender é f…”, em depoimento revelado nos autos da PF.

Após a troca de comando na UPP, o novo major também foi procurado por Professor, que reclamou da presença de policiais próximos a pontos de venda de drogas. O novo comandante se comprometeu a averiguar:

“Mano, mudou o comando, né? Queria falar sobre uns policiais que tão entrando ali pela Praça do Sagaz e indo no fundo da firma. Nunca tivemos problemas, fica cada um no seu espaço pra gente evitar algum estresse.”
“Tá beleza, vou ver. Quando foi isso? Foi hoje?”
“Sim, hoje e ontem.”
“Tranquilo, vou ver isso aí.”
em diálogo interceptado pela PF

Em outra gravação, o traficante pede a retirada do caveirão da comunidade, e a solicitação é acatada:

“Vê se dá pra tirar o caveirão daí. Tá atrapalhando.”
“Beleza, vou desenrolar isso aí.”
em conversa registrada pela PF

A Secretaria de Polícia Militar informou, por meio de nota, que não foi notificada oficialmente pela Polícia Federal sobre a investigação. Contudo, diante da gravidade dos fatos, a corporação solicitou acesso aos autos para instaurar procedimento interno. Até o momento, não há confirmação sobre o afastamento dos policiais envolvidos.

As gravações fazem parte da Operação Dakovo, que investigou um esquema internacional de tráfico de armas operado a partir do Paraguai. A investigação apontou que uma empresa em Assunção importava legalmente armamentos da Europa — como fuzis e pistolas — e os revendia ilegalmente para facções no Brasil, inclusive no Rio de Janeiro.

A Operação Dakovo levou à apreensão de 659 armas em dez estados brasileiros e à expedição de mais de 80 mandados judiciais, incluindo prisões e buscas no Brasil, Paraguai e Estados Unidos. A ação teve o apoio de forças internacionais, como o HSI dos EUA e a Senad do Paraguai.

No caso específico do Alemão, os diálogos reforçam a suspeita de que a UPP Nova Brasília vinha operando sob influência direta do tráfico. O Ministério Público Federal acompanha o caso e deve enviar um relatório à Corregedoria da PM do Rio de Janeiro.

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