A abertura de capital da Cedae voltou a gerar mobilização e tensão no Rio de Janeiro. Na manhã desta quinta-feira (9), movimentos sociais, sindicatos e parlamentares se reuniram em frente ao Palácio Guanabara para protestar contra o projeto do governo estadual que prevê a entrada da companhia estadual de saneamento no mercado financeiro.
O ato, que partiu do Largo do Machado, contou com a participação de trabalhadores em greve, representantes de movimentos populares e lideranças políticas. Para os organizadores, a proposta de abertura de capital é vista como mais um passo no processo de privatização da Cedae, com impactos diretos na gestão do saneamento e nas tarifas cobradas à população.
Durante a manifestação, os participantes cobraram transparência nas negociações conduzidas pela Casa Civil e criticaram o desempenho das concessionárias privadas que assumiram parte das operações da companhia após o leilão de concessão de 2021. Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Saneamento e Meio Ambiente (Sintsama-RJ), Victor Duque, o movimento busca pressionar o governo por diálogo.
“Vamos levar para o governo tudo que está acontecendo com a Cedae, principalmente em relação ao serviço prestado pelas empresas privadas que assumiram parte do atendimento e têm deixado comunidades sem água e com tarifas altas. A questão da abertura também é central pelo perigo de passar o controle de decisões estratégicas para o capital privado”, afirmou.
Uma comissão de representantes dos movimentos será recebida na próxima segunda-feira (13) pelo secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, para discutir o tema.
Deputados apoiam protesto e cobram fiscalização
O protesto reuniu nomes da política fluminense, como o deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ) e os estaduais Dani Balbi (PCdoB), Marina do MST (PT), Professor Josemar (Psol) e Flávio Serafini (Psol).
A deputada Marina destacou que já protocolou na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) um pedido para criar uma comissão especial que fiscalize os estudos de abertura de capital conduzidos pela Casa Civil. “Queremos que a sociedade acompanhe o processo e saiba o que está em curso. Não adianta usar palavras diferentes para mascarar um novo passo de privatização”, disse.
O contrato com o consórcio Hidro Rio, no valor de R$ 18,7 milhões, prevê a elaboração de estudos técnicos que subsidiarão a operação. Além do pagamento fixo, o grupo receberá um percentual sobre o valor de venda caso a abertura se concretize, o que levantou críticas entre sindicalistas e deputados.
Negociações bilionárias aumentam desconfiança
Outro ponto de insatisfação entre os manifestantes foi o acordo recente entre a Cedae e a concessionária Águas do Rio, que prevê o pagamento de R$ 900 milhões — valor que pode chegar a R$ 1,4 bilhão até 2056 — devido a supostos erros em dados apresentados no edital de concessão. A estatal havia contestado a cobrança dias antes de aceitar o acordo, o que gerou ainda mais dúvidas sobre a condução das negociações.
O deputado Luiz Paulo (PSD) acionou o Tribunal de Contas do Estado (TCE) pedindo apuração sobre a legalidade do termo de conciliação. Já o deputado Yuri Moura (Psol) articula a criação de uma CPI na Alerj para investigar o caso e as circunstâncias da decisão.
Para os parlamentares, o episódio evidencia um processo de perda de controle público sobre o saneamento fluminense, com decisões tomadas sem participação social.
O movimento sindical promete novas manifestações nas próximas semanas e reforça que continuará mobilizado até que o governo estadual garanta transparência e suspenda a abertura de capital da Cedae, considerada por eles um risco à soberania do saneamento no estado.














