Disputa entre CV e TCP na Maré molda território, rotina e até estética das comunidades

Complexo da Maré

A disputa entre CV e TCP na Maré não se resume a confrontos armados ou estatísticas de violência. Ela redesenha a geografia, impacta a rotina de mais de 140 mil moradores e impõe regras que vão do tipo de droga permitida à cor das roupas. O Complexo da Maré, formado por 16 comunidades na Zona Norte do Rio, é um retrato do controle exercido por grupos criminosos que se dividem entre Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e até milicianos.

A região é cortada por vias estratégicas como a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela, o que a torna cobiçada por organizações que atuam no tráfico e em outras atividades ilegais. Essa disputa territorial ocorre há mais de duas décadas, e em seu epicentro, moradores vivem sob ordens de facções que controlam desde a circulação entre bairros até o que pode ser vendido em feiras locais.

No lado controlado pelo TCP, estão comunidades como Vila do João, Vila dos Pinheiros, Salsa e Merengue, Baixa do Sapateiro, Timbau e Conjunto Esperança. Por ali, a venda de crack é proibida, ao contrário das áreas dominadas pelo CV, como Nova Holanda e Parque União, onde o comércio da droga é permitido e visível até em grandes avenidas.

A zona de tensão entre os grupos é conhecida como “Faixa de Gaza”, uma faixa que separa Nova Holanda da Baixa do Sapateiro. Neste local foi construído um memorial em homenagem às vítimas da violência, com nomes de mortos em confrontos entre facções ou em operações policiais. Do lado do TCP, mensagens religiosas e ilustrações bíblicas cobrem os muros, revelando um lado simbólico da disputa.

Um dos líderes do TCP, Thiago da Silva Folly, conhecido como TH da Maré, foi morto recentemente em uma operação da Polícia Militar. Ele dividia o comando com Edmilson Marques de Oliveira, o Cria ou Di Ferro, e Michel de Souza Malveira, o Bill ou Mangolê. Enquanto Cria era apontado como um dos mais violentos da facção, responsável por ataques a policiais, Bill era descrito como mais estratégico, com foco na gestão do tráfico e nos lucros.

A presença do crime também se expressa na estrutura física das comunidades. Na Vila do João, o “Baile da Disney” tornou-se famoso por suas festas ostentosas com atrações como Belo, Oruam e Deolane Bezerra. Os eventos, financiados com dinheiro de apostas e lavagem, aconteciam sob forte aparato armado e com estrutura profissional. Em um caso emblemático, o tráfico chegou a construir um shopping de cinco andares, com lojas, salas de jogos e feiras a céu aberto.

Além das facções, há ainda áreas da Maré sob controle de milicianos, como o Roquete Pinto e o Piscinão de Ramos. Investigações recentes mostram que a influência paramilitar na região tem crescido.

Até o início deste ano, a chefia geral do TCP era atribuída a Nei da Conceição Cruz, o Facão. Preso por tráfico, ele obteve liberdade condicional em janeiro e, segundo fontes policiais, comunicou à facção que deixaria o crime. A decisão teria sido influenciada por conversas com membros da ONG AfroReggae, onde atualmente trabalha.

A Polícia Civil monitorou mais de 1.100 pessoas ligadas ao crime organizado na Maré ao longo de dois anos de investigação. Somente na área dominada pelo TCP, usada como centro de treinamento da facção, foram identificados ao menos 400 integrantes. Todos foram indiciados por tráfico, associação para o tráfico e organização criminosa.

O mapeamento mais recente mostra que o TCP ainda domina a maior parte do território. Mesmo assim, o CV mantém forte presença em suas comunidades, com regras próprias, armamento pesado e estrutura de vigilância. As áreas sob influência das duas facções coexistem com fronteiras rígidas e constantes demonstrações de força, o que transforma o Complexo da Maré em um retrato vivo da complexidade do crime organizado no Rio.

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