A Universidade Federal do Rio de Janeiro entregou diplomas póstumos de graduação para 23 estudantes e homenageou dois professores perseguidos durante a ditadura militar. A cerimônia ocorreu no campus da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, Zona Norte do Rio de Janeiro, reunindo parentes de vítimas, professores e lideranças estudantis.
A iniciativa faz parte de um processo de reparação histórica conduzido pela instituição carioca. O objetivo é reconhecer formalmente o vínculo acadêmico daqueles que tiveram suas trajetórias interrompidas por prisões, expulsões, torturas ou assassinatos cometidos pelo regime autoritário.
Universidade reconhece a trajetória de alunos e professores perseguidos
Entre os homenageados está o ex-estudante de Economia Fernando Augusto da Fonseca. Expulso da universidade por conta do militismo estudantil, ele precisou abandonar o emprego e deixar a capital carioca. Fernando foi preso e morto no Recife em 1971, após 20 dias de tortura em instalações do Exército Brasileiro.
O filho de Fernando, o administrador e hoje professor da UFRJ André Luiz Araújo da Fonseca, de 56 anos, recebeu o documento em nome do pai. Na época do crime, André tinha apenas 3 anos e ficou retido em um hotel com a mãe grávida até a liberação do corpo. Ele destacou que a entrega do diploma simboliza a realização de um objetivo interrompido pela violência do Estado.
A lista de diplomados foi elaborada com base no relatório final da Comissão da Memória e Verdade da UFRJ. O grupo realizou levantamentos em documentos oficiais do país para identificar alunos e docentes que sofreram sanções administrativas ou violência física durante os anos de chumbo.
Quem foram os diplomados e como foi feita a identificação
O levantamento de nomes envolveu a checagem de processos disciplinares e registros do antigo Departamento de Ordem Política e Social. A comissão levantou documentos que comprovam o desligamento compulsório de estudantes que lutavam contra o regime militar nas décadas de 1960 e 1970.
Antes desta cerimônia em conjunto, a UFRJ já havia concedido o primeiro diploma póstumo em julho de 2024. A homenagem pioneira foi entregue à família de Stuart Angel Jones, estudante de Economia torturado e morto em 1971 nas dependências do Centro de Informações da Aeronáutica. O título foi entregue pelo reitor Roberto Medronho à irmã da vítima, a jornalista Hildegard Angel.
Além dos 23 alunos que não puderam concluir o curso, dois professores que já atuavam na instituição na época em que foram mortos tiveram seus legados acadêmicos reconhecidos oficialmente na mesma sessão solene.
O impacto da homenagem para as famílias e a comunidade do Rio
Para quem frequenta o campus do Fundão ou tem parentes que passaram pela universidade no período de exceção, o ato marca um resgate formal de direitos previstos em leis de reparação. A entrega dos títulos encerra pendências burocráticas mantidas nos arquivos da instituição por mais de meio século.
A direção do Diretório Central dos Estudantes Mário Prata avalia que o gesto tem duplo sentido. Além de reparar os familiares dos mortos e desaparecidos políticos, o reconhecimento serve como posição institucional contra o autoritarismo no presente.
Representantes da universidade pontuaram que a preservação da memória atende a recomendações da Comissão Nacional da Verdade. O objetivo é evitar que a história de perseguição no ambiente universitário do Rio de Janeiro seja apagada das futuras gerações.
Como funciona o atendimento e a pesquisa da Comissão da Verdade da UFRJ
Parentes de ex-alunos, pesquisadores e a população geral podem consultar o acervo histórico de documentos produzidos pela universidade. O arquivo geral reúne processos acadêmicos, fichas de matricula e relatórios de sindicâncias abertas durante o período militar.
- Onde consultar documentos: Arquivo Central da UFRJ, localizado no Parque Tecnológico, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro.
- Atendimento ao público: De segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, mediante agendamento prévio.
- Contato para dúvidas: Através do portal oficial da UFRJ (ufrj.br) ou pela secretaria da reitoria.
- Documentos necessários para consulta familiar: Documento de identidade do requerente e comprovação do grau de parentesco com o ex-aluno ou professor.
Como requerer revisões de prontuários de ex-estudantes no Estado
Famílias que possuem parentes perseguidos em universidades públicas do estado do Rio de Janeiro podem solicitar a abertura de processo administrativo de reparação simbólica. O procedimento exige a apresentação de documentos que comprovem o vínculo com a instituição na época dos fatos.
O pedido pode ser feito diretamente na Ouvidoria das universidades ou pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A comissão estadual auxilia na busca de documentos em arquivos públicos do Estado, como o acervo do antigo Dops guardado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.
Para mais detalhes sobre denúncias ou localização de registros de pessoas desaparecidas no período, o cidadão pode procurar a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. O atendimento inicial do Núcleo de Direitos Humanos ocorre na Avenida Marechal Câmara, 314, no Centro da capital, de segunda a sexta-feira, a partir das 8h.














