Rio Acari se transforma em depósito de carcaças de veículos na Zona Norte do Rio

Rio Acari

O Rio Acari voltou a ser palco de um cenário de abandono e degradação ambiental. Às margens do curso d’água, que corta a Favela do Bin Laden, no Complexo da Pedreira, Zona Norte do Rio, dezenas de carcaças e peças de automóveis foram encontradas pela reportagem, formando um verdadeiro “cemitério de veículos” a céu aberto.

As estruturas metálicas, ferragens e restos automotivos, possivelmente provenientes de carros roubados e desmontados, estão espalhados em diferentes pontos do rio, próximo às casas dos moradores. Além do impacto visual e ambiental, a presença do material aumenta o risco de alagamentos e contaminação do solo, principalmente durante o período de chuvas fortes.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a região de Acari é uma das campeãs em registros de roubo de veículos na cidade. Somente em agosto deste ano, foram contabilizados 1.016 casos de roubo de automóveis no município do Rio. Entre janeiro e agosto, a área que inclui Acari, Barros Filho, Costa Barros, Parque Colúmbia e Pavuna teve aumento de 34% nas ocorrências em relação a 2024, passando de 674 para 903 registros.

O problema, no entanto, não é recente. Em 2018, o local já havia sido denunciado com o mesmo acúmulo de sucata automotiva. Sete anos depois, a situação permanece praticamente inalterada, refletindo a falta de fiscalização e de políticas de limpeza contínuas na região.

Para o biólogo e ambientalista Mario Moscatelli, que há mais de três décadas atua na recuperação de ecossistemas costeiros degradados, os danos ambientais causados pelas carcaças são graves e de longo prazo. O resíduo, seja ele de qual tipo for, mas principalmente esse tipo de material, afeta diretamente a capacidade de escoamento das águas, resultando no acúmulo de mais resíduos e sedimentos, o que agrava o risco de inundações. Isso sem falar que todos os rios vão para algum lugar, geralmente baías, e, durante chuvas torrenciais, essas carcaças podem ser arrastadas, indo “repousar” no fundo dessas pobres baías. Tudo errado!, avaliou o especialista.

Moscatelli ainda alerta que a decomposição de materiais metálicos e de pneus pode levar décadas, comprometendo a qualidade da água e o equilíbrio ecológico do entorno. Se tiver pneu envolvido, não há previsão de decomposição, completou.

A Prefeitura do Rio informou que o Rio Acari será contemplado nas obras do PAC da Bacia do Acari, previstas no Plano Verão 2025/26. O projeto, com investimento de R$ 368 milhões, prevê ações de drenagem, saneamento e controle de enchentes em nove bairros, beneficiando cerca de 79 mil pessoas. Entre as intervenções, está o desassoreamento de 3,8 km do rio entre Jardim América e Acari.

Em nota anterior, a Fundação Rio-Águas havia informado que retirou mais de 191 mil toneladas de material do leito do rio em 2023, o equivalente a cerca de 16 mil caminhões de entulho. No entanto, moradores afirmam que a manutenção é irregular e que os resíduos voltam a se acumular com frequência.

A Polícia Civil ainda não se pronunciou sobre a origem das carcaças, que podem estar ligadas a desmanches de veículos roubados. Enquanto isso, o Rio Acari segue como um retrato da mistura entre crime, descaso e degradação ambiental, afetando diretamente quem vive às suas margens.

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