Racismo contra capoeiristas na Rocinha é denunciado após turista tentar dar banana

Racismo contra capoeiristas

O racismo contra capoeiristas na Rocinha virou caso de polícia após uma turista colombiana tentar colocar uma banana na sacola usada por artistas locais para arrecadar contribuições do público. O episódio aconteceu durante uma apresentação cultural na comunidade, na Zona Sul do Rio.

A situação ocorreu na terça-feira (26), mas foi registrada na delegacia dois dias depois. A Polícia Civil informou que o caso é investigado como injúria por preconceito pela 11ª DP (Rocinha).

Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que a mulher se aproxima da sacola usada pelo grupo após a roda de capoeira. Ao perceber a tentativa de colocar a banana no local, o capoeirista Rhian Gerônimo Martins da Silva, conhecido como Nescau, retira a sacola imediatamente.

Segundo integrantes do grupo, a turista fazia parte de uma excursão com 14 colombianos que visitavam a Rocinha para assistir à apresentação de artistas locais. Após o episódio, outra mulher aparece rindo nas imagens.

Nescau relatou que, no primeiro momento, os capoeiristas ficaram sem entender o que havia acontecido. Depois, segundo ele, o grupo percebeu o teor ofensivo da atitude.

“Nós temos o hábito de passar a bolsa porque temos um projeto comunitário. Na hora que fui passar a bolsa, a mulher veio com uma banana. De imediato eu não entendi nada, ninguém entendeu nada. Depois foi caindo a ficha. Vi o país dela, que tem esses casos de racismo, e uma estava olhando para a outra e tirando sarro. Ficamos sem reação, tentando entender o que estava acontecendo”, relatou Nescau ao RJ1.

O guia de turismo Jefferson Barros contou que foi avisado pelos capoeiristas logo após a apresentação. Ele afirmou que explicou à turista que a atitude era ofensiva e poderia configurar crime.

“É de praxe, depois do espetáculo, juntar o grupo para tirar uma foto. Foi quando ele me acionou falando: ‘Pô, guia, olha a banana aí’. Eu não acreditei que ela fez isso. Chamei o grupo para descer e sair do local. Expliquei para ela que aquilo era uma ofensa, um ato de racismo, um crime”, afirmou Jefferson ao RJ1.

Outra gravação mostra a turista deixando o local sorrindo. De acordo com Nescau, depois do episódio, a mulher ainda tentou tirar uma foto com ele e cumprimentá-lo.

“Na hora elas pediram foto, eu não aceitei. E ainda teve a cara de pau de sair rindo. Veio tocar na minha mão para amenizar. O sentimento é de nojo. Uma coisa dessa não é normal acontecer”, disse o capoeirista ao RJ1.

O capoeirista Samuel Deivison Ramos, conhecido como Thlla, também afirmou que o grupo ficou revoltado com o episódio. Para ele, a atitude desrespeitou artistas que estavam apresentando a cultura local aos visitantes.

“A gente está ali para fazer o show para eles, para eles terem uma experiência legal dentro da favela. E vir pessoas assim dentro da favela para fazer isso é algo que chateia a gente. Na hora a gente sente raiva”, afirmou Samuel ao RJ1.

A Polícia Civil informou que as imagens serão analisadas durante a investigação. Os agentes também devem ouvir os envolvidos para apurar as circunstâncias do caso.

O episódio reacende o alerta sobre manifestações racistas contra artistas negros e grupos culturais no Rio. A capoeira, reconhecida como expressão da cultura afro-brasileira, carrega forte significado histórico e simbólico para comunidades como a Rocinha.

O caso também ocorre poucos meses após outro episódio de repercussão envolvendo uma turista estrangeira no Rio. No início do ano, a argentina Agostina Páez foi indiciada por racismo após imitar um macaco e ofender funcionários de um bar em Ipanema.

Na ocasião, a Justiça determinou a apreensão do passaporte da turista e o uso de tornozeleira eletrônica. Posteriormente, ela foi autorizada a retornar à Argentina após o pagamento de uma indenização de cerca de R$ 97 mil.

Agora, os capoeiristas da Rocinha aguardam o andamento da investigação e cobram responsabilização para que situações como essa não sejam tratadas como brincadeira ou mal-entendido.

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