A Polícia Civil do Rio de Janeiro implantou um filtro exclusivo no sistema de registros para facilitar a investigação dos golpes de Boa Noite Cinderela. Desde 2024, ao menos 20 ocorrências semelhantes foram registradas, quase sempre envolvendo turistas, nacionais ou estrangeiros, além de homossexuais, como principais alvos.
Um desses casos ocorreu em janeiro, quando Rafael, nome fictício de um turista gaúcho, marcou um encontro por aplicativo de relacionamento em Copacabana. Após ingerir bebidas com os suspeitos, apagou na areia da praia e foi encontrado por banhistas. Ele teve o celular roubado e transferências de quase R$ 9 mil realizadas em suas contas. A 12ª DP (Copacabana) concluiu a investigação em seis dias, indiciando seis pessoas, que respondem em liberdade.
O novo recurso permite que os agentes filtrem os registros não apenas pela tipificação de roubo com vítima dopada, mas também pelo termo popular “Boa Noite Cinderela”. Essa medida deve facilitar a análise de padrões e a integração entre investigações que, até então, apareciam de forma dispersa nos sistemas.
Entre os casos recentes está o de dois turistas britânicos, dopados em Ipanema em agosto. Vídeos mostraram os homens desorientados na praia, um deles caindo com o rosto na areia. Eles foram socorridos e, em depoimento, relataram ter conhecido três mulheres em um samba na Lapa. As suspeitas levaram os britânicos a Ipanema, onde aplicaram o golpe. O prejuízo superou R$ 116 mil. Amanda Couto Deloca, de 23 anos, Mayara Ketelyn Américo da Silva, de 27, e Raiane Campos de Oliveira, de 28, foram identificadas como responsáveis; apenas a última segue foragida.
Casos semelhantes se repetem com frequência em pontos turísticos como a Lapa e a Pedra do Sal, locais de grande movimento noturno. Após abordagens em bares, os criminosos acompanham as vítimas até hotéis ou imóveis de temporada, onde as dopam e praticam o roubo. Em alguns episódios, televisores e eletrodomésticos foram levados, sem que houvesse prisão em flagrante dos envolvidos.
— Os turistas são alvos fáceis por não conhecerem a cidade e ficarem menos atentos à dinâmica local. Além disso, muitos não acompanham as investigações por residirem fora do país — explicou Ângelo Lages, delegado titular da 12ª DP.
Em outro episódio grave, o argentino Alejandro Mario Ainsworth, de 54 anos, foi encontrado morto em setembro, após sair de uma casa noturna em Copacabana na companhia de um suspeito. O corpo foi localizado na Estrada da Grota Funda, entre Recreio e Guaratiba, e o caso passou a ser investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital, que prendeu o acusado em São Paulo.
A titular da Deat, Patrícia Alemany, reforça que o crime também se dissemina por aplicativos de relacionamento LGBTQIAP+. — Recebemos casos praticamente toda semana, seja por encontros no Centro, seja por golpes aplicados na Zona Sul. Não estamos aqui para interferir na liberdade sexual de ninguém, mas é fundamental alertar sobre os riscos de se encontrar com desconhecidos — destacou.
A delegada também explicou que, na própria sede da Deat, há sofás reservados para que vítimas do golpe possam se recuperar do efeito de tranquilizantes. Segundo ela, muitas vezes é difícil detectar as substâncias utilizadas, tanto pelo tempo entre o consumo e o registro do boletim de ocorrência quanto pelo fato de os pacientes receberem medicamentos durante o atendimento médico.
Tanto Alemany quanto Lages observam que a maior parte dos envolvidos nesses crimes vem da Baixada Fluminense, especialmente de cidades como Duque de Caxias, Belford Roxo e São João de Meriti. Outros suspeitos se refugiam em áreas da Zona Oeste e comunidades do Centro e da Zona Norte, ampliando a complexidade das investigações.














