Nas vésperas de uma eleição, é natural que surja a discussão sobre o dinheiro público destinado a grandes shows, Carnaval e eventos culturais. De um lado, há quem enxergue esses recursos apenas como gasto. Do outro, há quem defenda a importância de manter uma agenda forte para a cidade e para o estado. Como profissional do turismo, acredito que esse debate precisa ser feito com seriedade, sem transformar cultura em inimiga de outras áreas que também são essenciais.
Ninguém defende que saúde, educação, segurança ou saneamento recebam menos atenção. São deveres permanentes do poder público e não podem ser tratados como moeda de troca. Mas também é um erro imaginar que investir em Carnaval, shows e grandes eventos seja simplesmente jogar dinheiro fora.
O Carnaval é uma das maiores atividades econômicas do Rio de Janeiro. Ele movimenta costureiras, aderecistas, músicos, artistas, técnicos, montadores, seguranças, ambulantes, motoristas, guias de turismo, hotéis, bares, restaurantes e uma rede enorme de pequenos negócios. Para muita gente, aquele período representa a oportunidade de gerar renda, pagar contas e manter uma atividade funcionando.
Os dados ajudam a colocar a discussão no lugar certo. A estimativa da Prefeitura para o Carnaval de 2026 foi de R$ 5,9 bilhões movimentados na economia carioca. O investimento público anual informado para a festa, incluindo incentivos culturais, operação e manutenção do Sambódromo, gira em torno de R$ 100 milhões. São valores de natureza diferente e não dá para tratar essa comparação como lucro automático. Ainda assim, ela mostra a dimensão de uma festa que coloca dinheiro em circulação por toda a cidade.
No Carnaval de 2025, o impacto econômico informado para o estado do Rio de Janeiro chegou a R$ 6,5 bilhões. Foram cerca de 70 mil empregos gerados, muitos deles temporários, mas todos com efeito real sobre a renda de famílias que trabalham no comércio, nos serviços, na cultura e no turismo.
Grandes shows seguem a mesma lógica. Um evento em Copacabana não movimenta apenas quem está na areia assistindo ao artista. Ele aumenta a ocupação dos hotéis, leva público aos restaurantes, aquece o transporte, cria demanda para fornecedores, promove a cidade no exterior e faz com que muita gente escolha viajar para o Rio naquele período. O estudo divulgado para um grande show realizado em 2026 apontou potencial de cerca de R$ 776 milhões movimentados na cidade. Mais uma vez, não se trata de olhar apenas para o palco. Trata-se de olhar para toda a cadeia que trabalha antes, durante e depois do evento.
Quem vive o turismo enxerga isso de perto. Um grande evento não beneficia apenas uma grande empresa. Ele cria trabalho para o recepcionista do hotel, para o garçom, para o motorista, para o guia, para quem vende comida na rua, para a equipe de limpeza, para o pequeno comerciante e para quem presta serviço a empresas maiores. Essa renda chega a bairros e famílias que muitas vezes não aparecem nas campanhas publicitárias nem nas fotos oficiais.
Além do retorno imediato, existe a imagem do Rio. Um show de alcance internacional ou um Carnaval bem organizado projeta a cidade para milhões de pessoas. Essa divulgação não se limita ao dia do evento. Ela influencia o desejo de viagem, fortalece o calendário turístico e ajuda o Rio a ser lembrado como destino capaz de receber grandes públicos.
Isso não significa que qualquer investimento deva ser aceito sem critério. O dinheiro público precisa ter transparência, contrato claro, fiscalização, prestação de contas e indicadores de resultado. É justo cobrar que os eventos gerem oportunidades para trabalhadores locais, valorizem artistas e fornecedores da cidade, ampliem a arrecadação e deixem benefícios concretos para a população.
O debate correto não é escolher entre cultura e serviços públicos. O debate correto é exigir boa gestão em todas as áreas. O Rio precisa de segurança, hospitais funcionando, escolas de qualidade, mobilidade e saneamento. Mas também precisa de trabalho, renda, turismo e uma economia criativa forte. Uma coisa não deveria excluir a outra.
Quando o poder público investe com planejamento, acompanha o resultado e garante que a riqueza gerada alcance mais gente, Carnaval e grandes shows deixam de ser vistos apenas como entretenimento. Eles passam a ser o que de fato são para o Rio de Janeiro. Uma política de emprego, renda, cultura e promoção da cidade.
Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo













