O 9 de abril de 2004 que marcou a Rocinha e que hoje simboliza superação

Willan Oliveira na Rocinha
No dia 9 de abril de 2004, eu era presidente da Associação de Moradores da Rocinha. Nunca vou me esquecer daquele dia. A Rocinha viveu um de seus momentos mais difíceis. Um silêncio pesado tomou conta das vielas. As luzes se apagaram, a água parou de correr nas torneiras, e muitos moradores ficaram trancados em suas casas, com medo, angústia e incertezas. Famílias inteiras rezavam para que aquela noite passasse logo, e o amanhã viesse com esperança.
Era uma Sexta-Feira Santa — e naquele dia, milhares de pessoas da Rocinha experimentaram, em suas peles, o peso da dor, do abandono e da invisibilidade. Eu mesmo vi as janelas se fechando, os olhares aflitos, o comércio parado. As ruas, geralmente vivas e pulsantes, ficaram vazias. Foi um dia de luto, um marco doloroso na nossa memória coletiva.
Mas o que parecia ser apenas dor, também plantou uma semente: a de que era preciso resistir, reconstruir, se unir.
E foi exatamente isso que a Rocinha fez.
De lá pra cá, muita coisa mudou. A comunidade floresceu. Projetos sociais se multiplicaram. A Rocinha se organizou, se fortaleceu, e começou a ocupar seu lugar de direito na cidade.
Hoje, o turismo pulsa nas ladeiras. Gente do mundo inteiro visita a Rocinha para conhecer sua cultura, sua arte, seu povo. O Complexo Esportivo virou espaço de vida, de saúde, de futuro. A Biblioteca Parque, um símbolo de saber e esperança. A UPA e a Clínica da Família trouxeram dignidade à saúde pública. A urbanização avançou com obras como a abertura da Rua 4 e os apartamentos populares, que mudaram a vida de muitas famílias.
É verdade que ainda nos faltam conquistas que são direitos básicos, como o prometido saneamento básico e moradia digna para todos. Mas não podemos negar que tivemos grandes avanços — fruto da luta do povo, da organização comunitária e de quem acredita que a favela tem que ser respeitada.
Hoje, a Rocinha é referência em trabalho social, inovação comunitária e protagonismo popular. Tem empreendedorismo, tem cultura, tem educação e tem luta — sempre com dignidade.
Se 2004 nos fez chorar, 2025 é o ano em que olhamos para trás e vemos o quanto somos fortes. A Rocinha resistiu. A Rocinha vive. A Rocinha avança.
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Quem é Willan Oliveira?

William de Oliveira é presidente do Instituto Missão Rocinha. Além disso, é diretor de Direitos Humanos e Segurança Pública da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro; diretor de Projetos e Articulação Institucional da Associação de Moradores da Rocinha; diretor de Apoio às Famílias da ABLC e representante do Escritório Modelo de Advocacia Criminal Gratuita.
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