Todos os dias, a estudante de Direito Bianca Montenegro, de 19 anos, estaciona o carro na rua em frente à faculdade, na Barra da Tijuca, e caminha alguns metros até o prédio onde tem aulas. Na terça-feira (8), no entanto, a rotina foi interrompida pela abordagem de um homem que exigiu R$ 20 para vigiar o veículo da jovem, cena recorrente na cidade. Ao perceber que ele não estava identificado, Bianca recusou a oferta e seguiu para o curso.
Ao retornar, cerca de três horas depois, ela não imaginava que o encontro com o homem se transformaria em caso de polícia. Segundo a estudante, assim que se aproximou do carro, foi ameaçada, empurrada e teve a porta do veículo chutada pelo agressor.
“Ele disse que tinha tirado foto do meu rosto, do carro e da placa. Falou que eu estava proibida de parar ali, e se voltasse ele me encheria de porrada. Tenho certeza que ele não me agrediu porque entrei rápido no carro e tranquei a porta, mas fiquei muito assustada”, contou.
Segundo a universitária, foi naquela hora que a amiga começou a filmar o que acontecia, e o homem se irritou e chutou a porta do veículo até amassar. A estudante conta que, em todo momento, ele fazia ameaças e a xingava.
“O homem ficava me ameaçando, falando que ia me bater se eu não desse o dinheiro para ele. Que eu não podia mais parar lá, como se ele fosse o dono da rua. Agora, eu tenho medo de ir para a faculdade”, lamenta.
A situação vivida por Bianca expõe um problema que está longe de ser novo: a baderna de cobrança irregular para estacionar nas ruas da cidade. E, apesar de a prefeitura já ter divulgado alguns planos para organizar e acabar com a farra dos flanelinhas clandestinos, eles não foram para frente. Atualmente, o governo não tem qualquer projeto para resolver o problema.
As extorsões a motoristas são mais frequentes na hora do lazer. Ir a Grumari e à Prainha, paraísos à beira-mar na Zona Oeste, pode custar caro. Misturados a guardadores com crachá e uniforme, pelo menos dez flanelinhas sem qualquer tipo de identificação atuam livremente neste trecho da orla nos fins de semana. Eles usam maquininhas de cartão e aceitam Pix, cobrando de R$ 15 a R$ 50, dependendo do perfil do motorista. No Recreio, bem perto dali, a farra é nas ruas internas, onde preços bem parecidos são cobrados. Na Zona Sul, o valor pode chegar a até R$ 100, se o motorista for um turista.
No entorno do Estádio Nilton Santos, no Engenho de Dentro, torcedores não escapam dos flanelinhas irregulares, que disputam espaço nas ruas. Na terça-feira (8), antes da partida entre Botafogo e Carabobo, pela Libertadores, eles entravam na frente dos veículos para atrair motoristas na Rua Dona Eugênia, uma das que dão acesso ao estádio, e cobravam valores aleatórios, decididos na hora de acordo com o freguês.
Mais de 5 mil abordagens
O serviço 1746, canal de reclamações da prefeitura, não tem um campo específico para as denúncias de flanelinhas irregulares. Os casos que chegam são classificadas como problemas de estacionamento. Segundo o secretário municipal de Ordem Pública, Brenno Carnevale, no entanto, a fiscalização dessas abordagens faz parte da rotina da pasta.
A Seop esclarece que a cobrança nas ruas só deve acontecer onde tem placa da CET-Rio indicando os horários e o valor da cobrança, e com o uso de talão. A taxa é de R$ 2 por período, e os guardadores que vendem os bilhetes são regulados pelo sindicado da categoria. Em nota, a PM informou que atua ostensivamente e que, em caso de flagrante, encaminha os envolvidos para a delegacia.














