A Munição de polícias e do Exército tem abastecido estruturas usadas pelo Comando Vermelho no Rio de Janeiro, segundo investigações conduzidas a partir de grandes apreensões de cartuchos com destino a áreas dominadas pela facção. O material apreendido foi identificado como proveniente de compras feitas por forças de segurança estaduais e até pelas Forças Armadas.
As cargas tinham como destino principal os complexos do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha, apontados pelas autoridades como centros estratégicos do grupo criminoso. As munições chegaram ao estado por diferentes rotas, incluindo porta-malas de carros, bagagens em ônibus interestaduais e até disfarçadas em encomendas.
Em uma das apreensões analisadas, peritos identificaram dezenas de lotes diferentes fornecidos pela Companhia Brasileira de Cartuchos a órgãos públicos. No Brasil, apenas projéteis destinados a forças de segurança recebem marcação de lote no corpo do cartucho, o que permitiu rastrear a origem do material encontrado com traficantes.
Entre os lotes identificados, havia munição adquirida por forças de segurança do Rio de Janeiro, do Mato Grosso, do Distrito Federal e da Bahia, além de compras realizadas pelo Exército Brasileiro. Parte do material já havia aparecido em episódios de violência de grande repercussão em outros estados.
Uma das investigações revelou que um carregamento interceptado no Distrito Federal seguiria para entrega no Rio, com ponto de encontro marcado na Rodoviária Novo Rio. Em depoimentos, suspeitos relataram que, caso a entrega não fosse concluída no local, a ordem era seguir diretamente para áreas controladas pelo tráfico.
Especialistas apontam que fragilidades no controle interno contribuem para o desvio. Para Bruno Langeani, consultor do Instituto Sou da Paz, a distribuição e o registro de consumo de munição ainda carecem de fiscalização rigorosa em parte das corporações, o que facilita desvios ao longo do tempo.
Outras investigações também identificaram redes de transporte envolvendo intermediários e pessoas cooptadas para levar cartuchos ao Rio em viagens interestaduais. Em alguns casos, os responsáveis pelo fornecimento foram identificados e condenados; em outros, a origem exata da munição não pôde ser determinada.
Procuradas, secretarias de segurança de estados citados nas apurações não se manifestaram. A Polícia Militar do Rio informou que, até o momento, não há confirmação de desvio relacionado ao caso específico analisado. As investigações seguem em andamento para identificar responsabilidades e fechar rotas de abastecimento.
Apuração e informações originalmente reveladas pelo portal Extra.














