O miliciano baleado no Hospital Pedro II, em Santa Cruz, foi identificado como Lucas Fernandes de Sousa, de 31 anos, conhecido como Japa. Ex-praça do Exército, ele deu entrada na unidade com quatro tiros no abdômen e outras lesões superficiais, após sofrer uma tentativa de homicídio. Morador de Paciência, na Zona Oeste do Rio, Japa já havia sido preso em 2019 por integrar uma milícia armada que atuava na região, extorquindo comerciantes com a cobrança de taxas semanais que variavam entre R$ 20 e R$ 80.
De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), Lucas cumpria liberdade condicional desde 2022. Na época de sua prisão em flagrante, agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) o flagraram entrando em bares da Rua Graça e Paz, em Paciência, para recolher valores sob ameaça. Entre os estabelecimentos alvo estavam o Bar do Botafogo e o Bar do Vasco, na localidade conhecida como Monte Sinai. Durante a ação policial, foram apreendidos R$ 1.102,02 em espécie.
As extorsões eram feitas mediante grave ameaça, sem qualquer consumo nos estabelecimentos, apenas sob a justificativa de “taxa de segurança”, relatou o delegado Fábio Freitas Salvadorretti, em depoimento. Ele acrescentou que os comerciantes eram intimidados previamente por rondas armadas da milícia, o que acelerava a cobrança.
Além das cobranças conhecidas como “arrego”, as investigações apontam que Japa também participava de atividades ilegais como exploração de TV a cabo clandestina, transporte irregular, jogos de azar e serviços de segurança sem autorização. O grupo ao qual ele pertencia possuía estrutura organizada, divisão de tarefas e usava armas de grosso calibre para expandir o controle territorial, inclusive cooptando agentes públicos.
Inicialmente condenado a 12 anos e 10 meses de prisão, Lucas teve a pena reduzida em segunda instância e passou ao regime semiaberto. Em 2021, deixou o Complexo de Gericinó para cumprir pena em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, retirada no ano seguinte após concessão de liberdade condicional.
Na quarta-feira, dia do ataque, ele chegou ao Hospital Pedro II por volta das 13h10. Segundo o secretário de Segurança do Rio, Victor Santos, a Polícia Militar foi acionada pelo efetivo de plantão da unidade, mas, na madrugada de quinta-feira, oito homens encapuzados invadiram o hospital em busca do paciente. Armados com fuzis e pistolas, renderam os seguranças e seguiram até o centro cirúrgico, acreditando que Japa ainda estava em operação, mas ele já havia sido transferido para a enfermaria.
— Existe um policial militar em cada unidade hospitalar do estado e do município exatamente para isso. Foi esse policial militar de plantão do Hospital Pedro II quem acionou a sala de operações do 27º Batalhão e propiciou que a equipe viesse reforçar a segurança — declarou o secretário Victor Santos, em coletiva de imprensa.
A invasão provocou pânico entre pacientes, médicos e funcionários. O secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, classificou o episódio como “uma situação que mostra a falência da política de segurança no Estado do Rio de Janeiro”. A Polícia Civil informou que aguarda a alta médica de Lucas para ouvi-lo oficialmente.
Além do histórico criminal, Lucas também é sócio da LF Fernandes Comercial Ltda, empresa aberta em 2024, registrada em Paciência com capital social de R$ 100 mil. A firma tem como atividade principal serviços de apoio a edifícios, mas inclui no objeto social atividades diversas como construção civil, serralheria, comércio de vidros, manutenção elétrica, pintura de imóveis e até controle de pragas urbanas.
O caso se soma a uma lista de invasões de unidades de saúde por criminosos no Rio de Janeiro, que incluem sequestros de médicos e resgates de bandidos, e reforça o clima de insegurança na capital fluminense.














