O tenente-coronel Mauro Cid afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta segunda-feira (9), que o ex-presidente Bolsonaro alterou minuta golpista e que o então comandante da Marinha, Almir Garnier, chegou a deixar tropas à disposição para um eventual golpe de Estado.
Conforme a matéria e apuração é de Daniel Gullino, Mariana Muniz, Eduardo Gonçalves e Eivan Martínez Vargas, do jornal Extra; Cid é o primeiro réu a prestar depoimento na ação penal que julga a trama golpista no STF. Ele declarou que Bolsonaro retirou da minuta a ordem de prisão de diversas autoridades, mantendo apenas o ministro Alexandre de Moraes como alvo da medida. “De certa forma, ele enxugou o documento, retirando as autoridades das prisões. Somente o senhor (Alexandre de Moraes) ficaria como preso”, afirmou Cid durante a audiência.
Segundo o ex-ajudante de ordens da Presidência, Almir Garnier chegou a deixar “as tropas da Marinha à disposição”. Ele ainda ressaltou que presenciou muitos dos fatos investigados, mas negou participação ativa nos atos: “Eu presenciei grande parte dos fatos, mas não participei deles”, disse ao ministro Moraes.
Durante o interrogatório, o relator Alexandre de Moraes abordou críticas à delação premiada de Cid, feitas por defesas de outros réus, que alegam omissões. Em resposta, Cid atribuiu as críticas a um “desabafo” motivado por crises emocionais: “Vendo minha carreira desbando, o que gerou uma crise psicológica muito grande, o que levou a um desabafo naquele momento ruim”, disse ele, reiterando que tudo o que declarou é verdade.
Moraes também lembrou que Cid prestou quatro depoimentos ao longo do inquérito, buscando reforçar a credibilidade da delação. O tenente-coronel ainda listou os grupos que pressionavam Bolsonaro. Segundo ele, Garnier estaria entre os mais radicais, enquanto os ex-ministros Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto seriam mais moderados. “Independente do que os militares pudessem falar, não significava que iriam agir. Dentro do círculo da legalidade, dificilmente isso seria rompido sem ordem do comandante”, ponderou Cid.
O que vem pela frente?
O STF iniciou nesta segunda a série de interrogatórios dos oito réus do núcleo principal da chamada trama golpista. Além de Mauro Cid, serão ouvidos Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto. Os depoimentos ocorrerão ao longo da semana na sala da Primeira Turma do STF.
Todos os réus comparecem presencialmente, com exceção de Braga Netto, que está preso preventivamente no Rio de Janeiro e participa por videoconferência. Durante cada sessão, Alexandre de Moraes realiza as primeiras perguntas, seguido pela Procuradoria-Geral da República e pelas defesas. Os interrogatórios ocorrem em ordem alfabética, após o depoimento do delator.
Os réus são acusados por cinco crimes: tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A legislação determina que o delator — neste caso, Mauro Cid — seja ouvido primeiro, já que seu depoimento pode ser utilizado como base contra os demais investigados.














