A ex-deputada venezuelana Maria Corina Machado foi anunciada, nesta sexta-feira (10), como vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2025. O Comitê Norueguês do Nobel, em Oslo, destacou seus “esforços persistentes pela restauração pacífica da democracia e dos direitos humanos na Venezuela”.
O prêmio, no valor de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,2 milhões), reconhece o papel da líder conservadora como uma das figuras mais influentes da política latino-americana contemporânea. Impedida de disputar eleições em seu país, Machado segue exercendo forte protagonismo dentro da oposição ao presidente Nicolás Maduro.
Em comunicado oficial, o Comitê afirmou que a escolha reflete “um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na América Latina nos últimos tempos”, destacando a capacidade da ex-deputada de unir forças políticas divergentes em torno do ideal de eleições livres e do restabelecimento do Estado de Direito.
“A democracia é uma condição prévia para a paz duradoura. Quando líderes autoritários tomam o poder, é essencial reconhecer os defensores da liberdade que se erguem e resistem”, diz o texto divulgado em Oslo.
O Comitê Norueguês ressaltou que Maria Corina Machado cumpre os critérios definidos por Alfred Nobel: promover fraternidade entre as nações, reduzir a militarização e trabalhar pela paz. “Ela demonstrou que as ferramentas da democracia também são as ferramentas da paz”, concluiu o documento.
Apesar do reconhecimento internacional, a escolha divide opiniões. Fundadora do movimento Súmate, criado há mais de duas décadas para monitorar eleições, Machado também é lembrada por seu envolvimento em episódios polêmicos, como o golpe de Estado de 2002 contra o então presidente Hugo Chávez. Na época, o movimento foi acusado de apoiar articulações golpistas e receber financiamento da National Endowment for Democracy (NED), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos.
Nascida em uma das famílias mais ricas da Venezuela, filha do empresário Enrique Machado Zuloaga, dono da siderúrgica Sivensa, Maria Corina se tornou uma das principais vozes da oposição após a expropriação das empresas familiares durante o governo Chávez. Em 2010, foi eleita deputada e, quatro anos depois, perdeu o mandato por aceitar representar o Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA), decisão que violava a Constituição venezuelana.
Mesmo cassada, ela seguiu ativa na política, sendo uma das articuladoras das manifestações conhecidas como guarimbas, marcadas por confrontos violentos entre opositores e forças de segurança. O episódio mais brutal ocorreu em 2017, quando o jovem Orlando Figuera foi linchado e queimado vivo durante protestos em Caracas — caso que se tornou símbolo das divisões políticas no país.
Ao longo dos anos, Maria Corina estreitou laços com lideranças conservadoras de outros países. É signatária da Carta de Madri, documento apoiado por políticos como Javier Milei, Giorgia Meloni e Eduardo Bolsonaro. Em 2023, participou de uma audiência virtual na Comissão de Segurança Pública do Senado brasileiro, a convite de Sergio Moro, onde foi elogiada por parlamentares da ala bolsonarista.
Mesmo inabilitada politicamente, Machado venceu as primárias opositoras de 2023 e manteve o protagonismo dentro da Plataforma Unitária, coalizão que posteriormente apoiou o ex-diplomata Edmundo González Urrutia nas eleições presidenciais de 2024.
A vitória no Nobel da Paz reforça sua imagem como símbolo de resistência democrática para seus apoiadores, ao mesmo tempo em que reacende debates sobre o papel da oposição venezuelana e a influência de potências estrangeiras no país.
Desde 1901, o Prêmio Nobel da Paz já contemplou nomes como Martin Luther King Jr., Nelson Mandela, Malala Yousafzai e Madre Teresa de Calcutá. A escolha de Machado insere a Venezuela, pela primeira vez, na lista de nações com representantes reconhecidos pela principal honraria mundial voltada à promoção da paz.














