Uma audiência pública marcada para esta terça-feira (10), na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, vai discutir as causas e os impactos da mancha no mar da Barra que alarmou banhistas e moradores da Zona Oeste no início de maio. O fenômeno, que deixou a água com uma coloração escura e espessa, reacendeu o alerta sobre a situação ambiental das lagoas da Barra, do Recreio e de Jacarepaguá.
Especialistas apontam que a mancha, registrada saindo do Canal da Joatinga, é sintoma de um problema antigo: o crescimento urbano acelerado sem a devida infraestrutura de saneamento. Apesar de o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) afirmar que o fenômeno pode ser natural, pesquisadores destacam que a poluição é um fator determinante.
“Frequento a praia da Barra, próximo ao Quebra-Mar, para jogar futevôlei, mas confesso que fiquei preocupado quando vi a mancha. Nunca tinha presenciado algo assim, mas colegas dizem que infelizmente não é incomum”, relatou Diego Santacruz, de 26 anos, em depoimento ao jornal O Dia.
Matheus Portella, de 24 anos, também morador da Barra, afirmou que episódios como esse influenciam na escolha dos locais onde ele costuma ir: “A praia é nosso principal lazer. Ninguém quer correr riscos ao mergulhar. Se isso virar rotina, vai afastar muita gente.”
Segundo o biólogo Mário Moscatelli, que atua há décadas na região, o surgimento dessas manchas ocorre há pelo menos 40 anos. “Tenho registros desde 1999. O que há de novo é a dragagem da Lagoa da Tijuca, algo prometido há anos e que finalmente está saindo do papel”, afirmou ao jornal O Dia. Ele acredita que a recuperação do sistema depende de três eixos principais: saneamento básico universalizado, dragagem permanente e ordenamento urbano contínuo.
Moscatelli explicou ainda que fatores naturais podem agravar a aparência da mancha, como a maré de sizígia e a ressaca do mar. “A matéria orgânica acumulada nas lagoas pode ser arrastada para o mar quando há uma forte variação na maré, causando essa coloração escura.”
A bióloga Stéphanie de Souza Cardim, mestre pela UFRJ, reforça que o cenário está intimamente ligado ao uso indevido do ambiente. “Ainda que uma análise detalhada seja necessária, tudo indica que a mancha é resultado da poluição causada por bairros do entorno”, explicou, citando Recreio, Jacarepaguá e Barra da Tijuca.
O debate público contará com a participação de vereadores, técnicos, representantes da Fundação Rio-Águas, da concessionária Iguá, da Agenersa e especialistas em meio ambiente. O encontro será realizado no auditório do Shopping Città América (Av. das Américas, 4.666 – 3º piso), a partir das 9h, com transmissão ao vivo pelo canal da Rio TV Câmara no YouTube.
O que dizem Inea e Iguá?
A Iguá, concessionária responsável pela gestão das lagoas, informou que segue com o plano de dragagem do sistema lagunar, com conclusão prevista para 2027. O Inea, por sua vez, afirmou que a coloração escura pode ser natural e provocada por sedimentos deslocados pela maré.
Na data em que a mancha surgiu, o órgão explicou que a maré variou de 1,1 metro para 0,2 metro, o que causou o escoamento de matéria orgânica das lagoas para o mar. “A diferença de temperatura entre a água das lagoas e a do oceano também contribuiu para a alteração na cor”, informou em nota.
Apesar de minimizar o risco, o Inea ressaltou que o trecho do Quebra-Mar não é considerado próprio para banho. “Orientamos que os banhistas evitem o mergulho em áreas próximas a saídas de rios, canais e galerias de águas pluviais, especialmente após chuvas”, concluiu.














