As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, superando inclusive doenças amplamente discutidas como o câncer. Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram responsáveis por cerca de 20,5 milhões de mortes globais em 2021, número superior às mortes por câncer estimadas para o mesmo período². A insuficiência cardíaca responde por parcela importante desse total.
Trata-se de uma condição altamente prevalente e que segue avançando de forma silenciosa. Estima-se que mais de 55,5 milhões de pessoas viviam com insuficiência cardíaca no mundo em 2021, um aumento de 33% em relação a 2010, segundo o relatório Heart Disease and Stroke Statistics 2026 da American Heart Association (AHA).
No Brasil, o impacto também é expressivo. Estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas convivam com insuficiência cardíaca no país, com aproximadamente 240 mil novos casos por ano. Além disso, a insuficiência cardíaca permanece entre as principais causas de internação cardiovascular no SUS, o que reforça seu peso assistencial e econômico para o sistema de saúde.
Esse cenário é particularmente preocupante porque, diferentemente de diversas terapias oncológicas de alto custo, os medicamentos para insuficiência cardíaca são relativamente acessíveis e amplamente disponíveis. No caso da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, o tratamento padrão combina medicamentos essenciais que reduzem o risco demorte, as internações e contribuem para a recuperação funcional do coração, desde que sejam introduzidos e titulados com acompanhamento adequado⁶. Essa abordagem, conhecida como terapia quádrupla, representa hoje o padrão de cuidado e é sustentada por ensaios clínicos robustos que demonstram reduções consistentes da mortalidade cardiovascular e das internações quando iniciada precocemente e mantida deforma adequada⁶.
O problema é que, na prática, esse potencial nem sempre se concretiza. Muitos pacientes não recebem todos os medicamentos ou interrompem o tratamento por receio de efeitos adversos, que podem ser monitorados com acompanhamento adequado. Quando a combinação não é completa ou as doses permanecem abaixo do recomendado, o risco de descompensações, reinternações e morte aumenta. Garantir a implementação plena do tratamento não apenas salva vidas, como também reduz hospitalizações e se mostra uma estratégia com bom custo-benefício para o sistema de saúde.
Cada hospitalização evitada significa mais tempo em casa e melhor qualidade de vida, assim como cada ajuste adequado de dose reduz o risco de morte súbita e de progressão da doença. Implementar integralmente o tratamento recomendado é uma escolha que efetivamente acrescenta anos de vida. Temos evidências robustas, diretrizes consolidadas e acesso cada vez maior às terapias; o desafio agora é transformar o tratamento completo em regra, e não exceção. Salvar vidas na insuficiência cardíaca não depende somente de novas descobertas, mas da aplicação consistente do que já sabemos que funciona.
Jefferson Vieira, Doutor em Cardiologia pela Universidadede São Paulo (USP).















