O ex-ajudante de Cláudio Castro, tenente da Polícia Militar Cláudio Barbosa da Silva, deixou oficialmente a estrutura da Subsecretaria Militar do Gabinete de Segurança Institucional do Governo do Estado. A movimentação ocorre em meio às mudanças administrativas promovidas pelo governador em exercício Ricardo Couto e reacende questionamentos sobre a ascensão do oficial na corporação.
A saída foi registrada em boletim interno da Polícia Militar no dia 8 de maio. No documento, Cláudio Barbosa aparece como “desadido”, o que significa que deixou de servir à disposição da Subsecretaria Militar do GSI e foi devolvido à corporação.
Após deixar o Palácio Guanabara, o oficial foi encaminhado ao Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, o CFAP, unidade ligada à formação e a atividades administrativas da Polícia Militar.
A mudança acontece dentro de um processo mais amplo de reformulação no governo estadual. Desde que assumiu interinamente, Ricardo Couto iniciou uma auditoria administrativa após a renúncia de Cláudio Castro, ocorrida em março deste ano. O processo já resultou em mais de 2,5 mil exonerações de pessoas ligadas à antiga gestão.
Cláudio Barbosa ganhou notoriedade dentro da corporação depois de ser promovido ao oficialato por ato de bravura em 2023. A promoção ocorreu após uma ocorrência registrada na Zona Norte do Rio e passou a ser alvo de questionamentos por causa das circunstâncias do caso.
Segundo a versão oficial da Polícia Militar, o então subtenente teria reagido a um arrastão na rua onde mora. O registro aponta que quatro criminosos participavam da ação e que um deles estaria armado com um fuzil.
Ainda conforme o documento, o policial teria saído de casa armado, buscado abrigo para observar a movimentação e reagido depois que dois suspeitos foram em sua direção. O relato afirma que ele efetuou dois disparos após ter sido alvo de tiros.
Apesar da narrativa apresentada no registro, nenhum suspeito foi preso e nenhuma arma foi apreendida. Uma motocicleta roubada foi abandonada no local após a fuga dos criminosos.
A promoção foi concedida pela Comissão Especial de Investigação Sumária Bravura/Coragem e Destemor da Polícia Militar. Com isso, Cláudio Barbosa passou da categoria de praça para o oficialato, assumindo o posto de tenente sem precisar ser aprovado no concurso interno tradicional do Quadro de Oficiais Auxiliares.
A ascensão também gerou impacto salarial automático, além de vantagens relacionadas à função que exercia no gabinete do então governador. Antes da promoção, o policial havia tentado ingressar no oficialato por meio de concursos internos da corporação, mas não obteve aprovação. Em 2023, chegou a ser reprovado em um processo seletivo para oficial.
Posteriormente, Cláudio Barbosa concluiu o Curso de Habilitação de Oficiais na Polícia Militar de Alagoas, em Maceió.
O caso passou a gerar ainda mais questionamentos após a divulgação de imagens feitas por um morador da mesma rua onde ocorreu o episódio. O vídeo mostra um assalto em andamento e uma motocicleta abandonada na via, mas não registra criminosos armados com fuzis, troca de tiros ou a ação atribuída ao policial.
Ao fim da gravação, é possível ouvir um disparo de arma de fogo, mas as imagens não permitem identificar de onde partiu o tiro.
A íntegra do documento que fundamentou o pedido de promoção por bravura não foi divulgada pela Polícia Militar. Em resposta via Lei de Acesso à Informação, a corporação informou que os documentos estavam protegidos por sigilo classificado como reservado.
A legislação estadual prevê que promoções por bravura devem reconhecer atos excepcionais de coragem, audácia e risco além do dever funcional. Entre os critérios estão exposição efetiva ao perigo, desvantagem numérica e participação direta em situações de alto risco.
O coronel da reserva da PM e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, Robson Rodrigues, criticou os critérios atuais de avaliação dentro da corporação.
“A questão da promoção na polícia é nefrálgica. Não há critérios. Nosso regulamento promove muitas injustiças”, afirmou Robson Rodrigues.
Sobre o caso de Cláudio Barbosa, o especialista disse não ver elementos suficientes para caracterizar um ato de bravura.
“Beneficiado por ser policial militar, ele não agiu assim com todo esse altruísmo que a gente poderia avaliar em uma legislação específica e objetiva para poder definir casos de bravura”, declarou.
O vínculo entre Cláudio Barbosa e Cláudio Castro é anterior ao período em que o ex-governador assumiu o comando do estado. Antes de atuar como ajudante de ordens, o policial já integrava a equipe de segurança de Castro quando ele ainda era vice-governador.
Os dois também apareceram juntos em imagens relacionadas a investigações sobre suposto pagamento de propina ao então vice-governador em 2021. Na ocasião, Castro foi filmado entrando em um prédio comercial na Barra da Tijuca para um encontro com o empresário Flavio Chadud, investigado por corrupção.
Segundo delações analisadas pela Justiça, o então vice-governador teria recebido R$ 100 mil em uma mochila após o encontro. Cláudio Castro nega irregularidades. O processo segue em tramitação judicial.
Em 2023, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça negou pedidos apresentados por Cláudio Castro para anular delações nas quais ele é citado.
O mesmo boletim da PM que aprovou a promoção de Cláudio Barbosa rejeitou outros oito pedidos de promoção por bravura. Entre eles estavam casos envolvendo confronto armado contra cerca de 30 traficantes fortemente armados no Complexo da Pedreira e Chapadão, na Zona Norte do Rio.
Nessa operação, policiais apreenderam sete fuzis, incluindo uma arma calibre .50, prenderam um criminoso e balearam integrantes do Comando Vermelho apontados como lideranças da região.
Outro pedido negado envolvia uma policial militar que entrou no Rio Preto, em Rio das Flores, para salvar uma mulher arrastada pela correnteza. Apesar da negativa da promoção, os agentes envolvidos nessas ocorrências receberam a Medalha de Coragem e Destemor da corporação.
No caso de Cláudio Barbosa, especialistas apontam uma situação considerada incomum: ele recebeu a promoção por bravura, mas não foi agraciado com a medalha.
Tanto o procedimento de promoção quanto o registro da ocorrência foram colocados sob sigilo pelo governo estadual à época. Para especialistas em segurança pública, a medida não é comum em processos ligados a atos de bravura policial.
Integrantes da corporação afirmam que procedimentos semelhantes normalmente têm apenas partes sensíveis ocultadas, sem necessidade de manter todo o conteúdo sob sigilo integral.
Com a saída do GSI e o retorno à Polícia Militar, o caso do ex-ajudante de ordens volta ao centro das discussões sobre critérios de promoção, transparência administrativa e mudanças no entorno político deixado pela gestão anterior.














