Escândalo na Argentina: Empréstimo do Master vira peça-chave em investigação de desvio de fundos na AFA e estádio da Copa

O chamado “caso Master” ganhou contornos internacionais e chegou à Argentina, em meio a tensões diplomáticas entre Brasil e o país vizinho. O Ministério Público argentino analisa a possibilidade de cooperação com a Polícia Federal brasileira para investigar conexões entre alvos da Operação Carbono Oculto e supostas irregularidades na concessão de um estádio na Argentina, palco de jogos da seleção brasileira em Copas do Mundo.

A investigação argentina, conhecida como “caso Sur Finanzas”, aponta para crimes de lavagem de dinheiro, desvio de recursos e fraude bancária envolvendo a Associação de Futebol Argentino (AFA) e ex-dirigentes do clube Banfield. A peça central dessa investigação, conforme revelado pela coluna Demétrio Vecchioli, é um empréstimo de R$ 450 milhões concedido pelo banco Master à empresa Revee.

Este empréstimo, que serviu como garantia para a concessão do complexo esportivo em Mar del Plata, está agora sob escrutínio das autoridades brasileiras e argentinas. A colaboração entre os países pode trazer à tona detalhes cruciais sobre a movimentação financeira e a gestão dos recursos públicos e privados envolvidos no caso, conforme informações divulgadas pelo Metrópoles.

O empréstimo do Master como garantia na Argentina

Documentos obtidos com exclusividade mostram que a Cédula de Crédito Bancário (CCB) do Master, traduzida para o espanhol, foi apresentada durante o processo de concessão do Parque Municipal de los Deportes Teodoro Bronzini, em Mar del Plata. A empresa brasileira Revee utilizou essa documentação para comprovar sua capacidade financeira.

A Revee anexou também uma declaração juramentada informando que US$ 26 milhões, equivalentes a R$ 148 milhões na época, repassados pelo Master, já estavam reservados para obras no complexo argentino. No entanto, um ano após a Operação Carbono Oculto e treze meses após a assinatura da concessão, o estádio tem enfrentado problemas sérios, incluindo falta de energia por inadimplência e dívidas com fornecedores e trabalhadores que se aproximam de R$ 5 milhões.

Histórico da Revee e a concessão em Mar del Plata

A Revee já possui experiência em concessões de equipamentos esportivos no Brasil, tendo administrado o ginásio Geraldão em Recife e a Arena Fonte Luminosa e o ginásio Gigantão em Araraquara. O interesse pelos complexos argentinos, que incluem o Estádio José María Minella (o “Mondialista”) e o ginásio Islas Malvinas, surgiu devido ao seu estado precário de conservação.

Para participar da licitação, a Revee constituiu a empresa argentina Minella Stadium SA. A companhia brasileira detinha a participação majoritária, com 87,5% das ações, enquanto os 12,5% restantes pertenciam à Sociedad Expansiva S.A., cujos donos são desconhecidos. A Minella Stadium SA foi a única a apresentar proposta.

Investigações se cruzam: Carbono Oculto e Sur Finanzas

A concessão em Mar del Plata foi assinada em julho, mas a intervenção da Revee no local foi mínima. Em agosto, eclodiu a Operação Carbono Oculto no Brasil, que teve como um de seus alvos o empresário João Carlos Mansur, presidente do conselho de administração da Revee. Paralelamente, em dezembro, a Argentina deflagrou o “caso Sur Finanzas”, com buscas na AFA e em clubes, focando em Eduardo Spinosa, ex-presidente do Banfield.

Spinosa, até o mês passado, presidia a Minella Stadium SA, a concessionária do estádio em Mar del Plata. Essa conexão direta com o empréstimo do Master, que foi usado como prova de capacidade financeira, intensificou as investigações argentinas, que também cumpriram mandados de busca em prédios públicos da cidade em busca de documentos relacionados à concessão.

Revee se distancia e nega vínculos com Sur Finanzas

Em nota, a Revee informou ter vendido sua participação na concessionária há cerca de dois meses, já em meio às investigações. A empresa declarou ter cumprido todas as suas obrigações durante o período em que esteve à frente da operação e que o ativo deixou de integrar seu portfólio. A Revee também esclareceu que não integra o Grupo Sur Finanzas nem mantém qualquer vínculo societário ou operacional com o grupo, afirmando adotar procedimentos rigorosos de governança e diligência em suas relações comerciais.

A empresa justificou a venda da participação sem comunicação ao mercado por não se tratar de uma venda de valor relevante, realizada a custo com recuperação de gastos incorridos no projeto. A entidade Mirada Ciudadana Asociación Civil, autora de uma ação na justiça federal argentina, busca cooperação judicial com o Brasil para investigar a fundo a concessão, suspeitando do envolvimento de outros cartolas argentinos e funcionários públicos.

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