Dispersão da Cracolândia: ONGs e Profissionais Relatam Dificuldades Críticas no Atendimento a Dependentes Químicos

Um ano após a dispersão da Cracolândia, o atendimento a dependentes químicos enfrenta sérios obstáculos.

A dispersão da Cracolândia, ocorrida em maio de 2025, prometia o fim das aglomerações abertas de dependentes químicos na região central de São Paulo. No entanto, um ano depois, coletivos e profissionais que atuam na área, como médicos, assistentes sociais e redutores de danos, relatam dificuldades significativas para dar continuidade aos atendimentos.

A pulverização do chamado “fluxo” tem impedido, na maioria das vezes, a localização dos usuários, o que, por sua vez, trava as assistências essenciais. Essa situação tem gerado preocupação quanto à vulnerabilidade ampliada desses indivíduos e à interrupção de tratamentos vitais.

As informações sobre as dificuldades no atendimento foram divulgadas por reportagem do Metrôpoles, que também apontou que a dispersão foi marcada por abusos policiais e ações higienistas, segundo relatos de testemunhas. O governo estadual, por outro lado, atribui o fim da cena aberta a políticas públicas integradas.

Dificuldades na Localização e Continuidade do Tratamento

A principal queixa dos profissionais de ONGs e coletivos é a impossibilidade de encontrar os usuários de drogas com a mesma facilidade de antes. “Depois da dispersão, a gente teve dificuldade de encontrar as pessoas, de saber se elas estavam vivas. Se as pessoas que a gente conhece há mais de uma década estavam bem, se elas estavam continuando o tratamento de tuberculose, de HIV”, afirma Marcel Segalla, pesquisador de temas ligados a saúde coletiva, drogas e cultura corporal.

Essa dificuldade de localização impacta diretamente o acesso à saúde e a tratamentos clínicos. Muitos usuários abandonam terapias e acompanhamento médico, aumentando o risco de agravamento de condições preexistentes e o desenvolvimento de novas doenças.

Impacto na Saúde e Assistência Social

A preocupação com a saúde vai além do tratamento da dependência química. Pessoas em situação de rua ou com uso abusivo de substâncias frequentemente lidam com outras doenças, como HIV e tuberculose, que exigem acompanhamento contínuo e acesso a medicações. A dispersão dificulta esse acesso, colocando vidas em risco.

Um caso relatado por Flavio Falcone, médico psiquiatra que atua na região desde 2010, ilustra a gravidade da situação: “Tem um caso de uma pessoa que eu trato desde 2013, que é uma paciente HIV positivo, e depois da dispersão ela parou de fazer o tratamento. Ela pegou uma tuberculose super resistente e faleceu. E ela parou o tratamento do HIV porque cada dia ela estava num lugar e as equipes de saúde não a encontravam mais para dar a medicação que ela precisava, e ela morreu por causa disso”.

Serviços Sociais Comprometidos

Além dos atendimentos de saúde, os serviços de assistência social também foram afetados. As abordagens policiais teriam levado à perda de pertences e documentos por parte dos usuários, dificultando o acesso a direitos básicos e a programas sociais, como o Cadastro Único.

“Sem conseguir localizar essas pessoas, o trabalho fica impossível de ser realizado, o que também limita o acesso dos usuários a outros direitos, como a realização do Cadastro Único, que permite o recebimento de auxílios sociais, por exemplo”, explica Lydia Gama, advogada e coordenadora do coletivo “Teto, Trampo e Tratamento”.

Respostas Oficiais e Investimentos

A Prefeitura de São Paulo informou que o acolhimento e tratamento a pessoas em situação de rua ou com uso abusivo de álcool e drogas é um trabalho permanente, realizado em parceria com o governo do estado. O município destacou a ampliação da rede de atendimento social e de saúde, com aumento de 40 para 110% no número de equipes do Consultório na Rua e um crescimento de cerca de 80% nas vagas de acolhimento noturno desde 2020.

O governo de São Paulo, por sua vez, afirmou que as ações que levaram ao fim da antiga Cracolândia foram construídas priorizando a segurança pública, a saúde e a assistência social. O estado alega que as medidas não interromperam o atendimento nem a busca ativa, e que investiu R$ 243,5 milhões entre 2023 e 2026 na estrutura de proteção social da Política Estadual sobre Drogas.

A Guarda Civil Municipal de São Paulo declarou que realiza policiamento preventivo e ostensivo com foco no combate ao tráfico de drogas e no ordenamento do espaço público, atuando em conformidade com a legislação.

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