Cracolândia: Arte e Redução de Danos Transformam Vidas com Música e Educação em SP

Na Cracolândia, a arte se torna ferramenta essencial para a redução de danos e a reinserção social de pessoas em vulnerabilidade.

O atendimento a usuários de drogas na Cracolândia, em São Paulo, vai além das ações governamentais. Organizações não governamentais e coletivos atuam há anos na região, oferecendo abordagens inovadoras.

Um dos métodos mais eficazes é a Redução de Danos, estratégia que busca minimizar os prejuízos associados ao uso de substâncias, priorizando a dignidade e os direitos humanos.

Coletivos como o “Teto, Trampo e Tratamento” (TTT) e o “Pagode na Lata” utilizam a arte, a educação e o trabalho como pilares para criar vínculos e oferecer novas perspectivas de vida. Conforme informações divulgadas por esses grupos, a arte é a principal ferramenta para criar laços com os usuários, oferecendo um ponto de apoio e resgatando a autoestima.

Arte como ponte para a dignidade

A advogada e coordenadora do TTT, Lydia Gama, explica que o objetivo principal é fazer com que os frequentadores da Cracolândia se vejam novamente como seres humanos, com potencialidades e perspectivas de futuro, mesmo que ainda façam uso de substâncias. “Tudo que falaram para ela é que ela é um zumbi, que está errada. O nosso trabalho não é só fazer com que a sociedade entenda, é fazer com que eles entendam também que são humanos”, afirma.

O TTT oferece oficinas de letramento, pensamento crítico, ritmo e escrevivências, além de estimular a educação financeira por meio da Operação Trabalho (POT). Essa iniciativa, em parceria com a prefeitura, disponibiliza vagas de trabalho com foco em inclusão social e qualificação profissional para pessoas em situação de vulnerabilidade.

As oficinas de bateria do TTT, que acontecem na praça General Osório, são um grande atrativo. A produção artística, segundo Lydia, abre caminhos para a profissionalização, transformando o interesse pela música em oportunidade de geração de renda e, consequentemente, em meios para que os participantes se reorganizem e se restabeleçam.

Pagode na Lata: Música que transforma e reduz danos

O coletivo “Pagode na Lata”, formado majoritariamente por ex-moradores e frequentadores da Cracolândia, segue a mesma premissa. O grupo, que antes se apresentava gratuitamente, hoje leva sua música a diversos locais, servindo como fonte de renda e esperança.

Leonardo dos Santos, integrante do “Pagode na Lata” e ex-orientador socioeducativo do programa De Braços Abertos (DBA), ressalta o impacto das rodas de samba. “Por exemplo, quando a gente vai no bar da Nice, a gente também cuida do entorno, porque é naquele momento que as pessoas deixam de usar a substância, nem que seja o mínimo possível, para curtir uma roda de samba”, explica.

Ele exemplifica: “Tinha um homem que dizia que, em uma hora, usava 80 pedras de crack. Se ele está há uma hora, duas horas em uma roda de samba, ele deixou de usar 160 pedras”. A iniciativa oferece escuta ativa, informações sobre tratamento e momentos de lazer acessíveis, práticas essenciais na política de Redução de Danos.

Redução de Danos: Uma abordagem baseada em realismo e direitos humanos

A estratégia de Redução de Danos, implementada no Brasil na década de 1980, tem como foco principal não erradicar o uso de drogas, mas garantir que os usuários possam preservar sua integridade e vida. Essa política é ancorada no realismo e nos direitos humanos.

Leonardo dos Santos enfatiza a importância de entender a situação social do indivíduo. “Eu acho que, para além do uso da substância, que é só a cereja do bolo, é a falta de educação, é a falta de trabalho, é a falta de assistência social, é a falta de acesso à saúde clínica e mental. A situação de vulnerabilidade alcança essas pessoas antes de elas conhecerem a droga”, pontua.

Estudos como a pesquisa “Potencialidades e desafios de uma política pública intersetorial em drogas: o Programa De Braços Abertos de São Paulo, Brasil”, realizada pela Uerj, indicam resultados promissores. A pesquisa aponta que 87,90% dos respondentes do programa De Braços Abertos reduziram o uso de crack, e 83,73% declararam estar em tratamento de saúde.

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