O decreto de Cláudio Castro sobre máquinas de jogos provocou forte reação de especialistas em saúde, comunicação e economia. A medida, publicada em 19 de agosto no Diário Oficial, regulamenta a exploração de modalidades lotéricas por meio de video lottery terminals (VLTs), totens, terminais de apostas e máquinas smartPOS no estado do Rio de Janeiro.
Pela nova regra, os equipamentos poderão funcionar em lotéricas, estabelecimentos credenciados, bares, restaurantes, mercados e até em espaços temáticos chamados Sports Bar. Todos deverão ser homologados e interligados ao sistema da Loterj.
A decisão, porém, foi criticada por médicos e pesquisadores, que associam a medida ao risco de agravamento do vício em jogos. O psiquiatra Jorge Jaber, especialista em dependência química, explicou que as máquinas têm o mesmo efeito das apostas digitais, ativando circuitos cerebrais ligados à liberação de dopamina. A cada rodada, o jogador busca a sensação de prazer e bem-estar, mesmo quando perde, o que mantém o comportamento compulsivo. Isso pode levar à dependência de forma semelhante ao uso de drogas, afirmou. Segundo ele, a facilidade de acesso tende a aumentar os casos de jogadores compulsivos.
Fernando Flores, jornalista e pesquisador do tema, também classificou o decreto como uma medida que vai “na contramão da ciência e da saúde pública”. Ele citou estudos da revista científica Lancet e o manual de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM), que já reconhecem o jogo patológico como um transtorno aditivo, comparável ao vício em drogas como cocaína e crack.
Do ponto de vista econômico, João Vitor Pires, secretário de proteção e defesa do consumidor do Rio, destacou os riscos de endividamento e impactos sociais. Estamos jogando milhões de pessoas no vício, destruindo famílias e agravando uma epidemia silenciosa no país. Não há dúvida de que essa é uma das medidas mais absurdas dos últimos anos, declarou.
A Prefeitura do Rio também se posicionou contra a medida. O prefeito Eduardo Paes afirmou que não permitirá a instalação de VLTs e máquinas de apostas na cidade, negando alvará de funcionamento a estabelecimentos que tentarem adotar os equipamentos.
Em defesa, o Governo do Estado argumenta que a regulamentação vai gerar empregos e arrecadação. Além disso, prevê exigências como cadastro obrigatório de jogadores, autenticação multifatorial, pagamentos apenas via PIX e registro em sistema auditável, além de campanhas de conscientização sobre jogo responsável.
Para especialistas, no entanto, a falta de mecanismos de prevenção sólidos torna a iniciativa um risco. Jorge Jaber reforça que a legalização sem forte regulação expõe a população vulnerável ao vício. Atividades econômicas devem ter espaço, mas quando lidamos com algo que comprovadamente gera dependência, é indispensável estabelecer limites claros, fiscalização rigorosa e campanhas educativas, concluiu.














