O paraíso refém: como o crime organizado está asfixiando o turismo na Região dos Lagos

Crime organizado em Búzios

Quando pensamos na Região dos Lagos, a primeira imagem que vem à cabeça é a das águas cristalinas de Arraial do Cabo, o charme da Rua das Pedras em Búzios ou o vento perfeito de São Pedro da Aldeia. É o principal destino de sol e praia do estado do Rio de Janeiro, um motor econômico que, apenas em Cabo Frio, tem a expectativa de movimentar quase 2 bilhões de reais e atrair três milhões de visitantes na alta temporada.

Mas existe uma sombra crescendo sobre esse cartão-postal. Uma realidade que quem opera turismo na região já percebeu, mas que muitas vezes é varrida para debaixo do tapete. O avanço silencioso e sistemático das facções criminosas sobre essas cidades.

Os números do Atlas da Violência 2026 são um soco no estômago de quem trabalha com turismo. Cabo Frio, Araruama e São Pedro da Aldeia registraram taxas de homicídio que superam não apenas a média do estado do Rio, mas a média nacional. Cabo Frio chegou a 36,1 homicídios por 100 mil habitantes, um índice 12 pontos acima da média do Brasil. Araruama aparece com 33,4 e São Pedro da Aldeia com 29,8. Para se ter noção do que isso representa, a média nacional ficou em 23,4 em 2024.

Isso não é apenas um problema de segurança pública. É uma crise econômica em formação.

O turismo é, por definição, a indústria da hospitalidade e da tranquilidade. Ninguém viaja para relaxar em um lugar onde precisa se preocupar com qual rua pode entrar ou qual praia está em área de disputa. Quando o crime organizado se instala, e o que vemos na Região dos Lagos é uma interiorização clara de facções que antes se concentravam na capital, o impacto na cadeia turística vem em cascata.

Primeiro, o morador perde a liberdade. Bairros inteiros passam a conviver com a lógica territorial do tráfico. Depois, o pequeno comerciante, o dono da pousada e o barqueiro começam a sentir o peso de operar em um ambiente de insegurança. E inevitavelmente a conta chega no turista.

Já começamos a ver os reflexos disso. Notícias de turistas assaltados ou pegos no fogo cruzado de disputas territoriais destroem em segundos o trabalho de anos de promoção turística. O mercado internacional é extremamente sensível a esse tipo de informação. Um operador europeu que lê sobre o aumento da violência em Búzios ou Cabo Frio simplesmente risca o destino do catálogo. E o turista nacional, que hoje tem acesso a informação em tempo real, repensa a viagem antes mesmo de reservar.

Não podemos cair na armadilha de achar que o turista não percebe o que acontece fora da orla. A cidade é um organismo vivo. O funcionário do hotel que mora em um bairro dominado pelo tráfico leva essa tensão para o trabalho. A insegurança urbana afeta o clima do destino inteiro, não só as ruas onde ela acontece diretamente.

A prefeitura de Búzios apresentou recentemente um balanço positivo de redução de criminalidade na alta temporada, com reforço policial e uso de tecnologia. É um respiro necessário e mostra que ações integradas funcionam. Mas o problema estrutural exige muito mais do que policiamento de verão.

Como turismólogo, defendo que o turismo não pode ser uma bolha de proteção apenas na orla enquanto o resto da cidade sofre. O desenvolvimento turístico real precisa ser um indutor de melhoria urbana. Quando a cidade é boa e segura para o morador, ela naturalmente se torna boa e segura para o turista.

A Região dos Lagos tem um potencial incalculável. Mas para continuar sendo o nosso grande paraíso de águas claras, precisa enfrentar de frente a escuridão que tenta se instalar em suas ruas. Fingir que o problema não existe é o caminho mais rápido para perder o nosso maior patrimônio.

Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo

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