Celeste: o solo visceral de Poppe sob direção de Milhazes

Márcia Milhazes

Há coreografias que deixam marcas pelo que dizem sem precisar usar palavras. Esse é o caso de Celeste, o mais novo trabalho da renomada coreógrafa Márcia Milhazes. Criado especialmente para a bailarina Maria Alice Poppe, o solo é uma síntese poderosa de emoção e técnica, construída com a sensibilidade que caracteriza ambas as artistas.

Milhazes é reconhecida por seu estilo singular. Sua linguagem coreográfica se traduz em movimentos que se repetem, mas se transformam sutilmente, deixando o espectador intrigado com a fluidez de mudanças quase imperceptíveis. Ela se autodefine como barroca — e não à toa. Há um certo parentesco estético com a obra de sua irmã, a artista plástica Beatriz Milhazes, embora o barroco de Márcia se revele no corpo e no gesto.

Em Celeste, essa estética encontra o corpo maduro e expressivo de Poppe. O resultado é um solo que reverbera múltiplas camadas femininas. A bailarina encarna uma jovem vulnerável, talvez uma Macabéa, ou uma mulher em êxtase místico, como Teresa de Ávila. Mas não é uma representação direta — tudo é sugerido por meio de gestos, olhares e respiração. Celeste é apenas ela mesma: complexa, vibrante, multifacetada.

O corpo em cena se contorce e se expande: mãos se retorcem, braços se elevam, a coluna curva e se desenrola em ritmos ora suaves, ora pulsantes. A coreografia parece tecida em fios invisíveis de tensão e lirismo. A palavra “tessitura” se encaixa perfeitamente aqui — há um tecido de movimentos que se costura diante dos olhos, com delicadeza e precisão.

Cada gesto carrega um estado emocional. A técnica é evidente, mas jamais engessada. Há vida em cada respiração, em cada transição entre os movimentos. Maria Alice Poppe, com sua vasta experiência, sustenta a cena sozinha com uma presença que prende a atenção do início ao fim. Não há cenário elaborado, nem figurinos chamativos. A força está no essencial: no corpo e na luz que o acompanha.

Celeste é um trabalho que reafirma a importância da dança contemporânea feita no Rio de Janeiro, num momento em que o setor cultural ainda enfrenta limitações de espaço e incentivo. A união entre Milhazes e Poppe é um presente raro para o público carioca e, certamente, um fôlego necessário para o panorama da dança nacional.

Mais do que um espetáculo, Celeste é um encontro entre criadora e intérprete, entre razão e sensibilidade. Um solo de mulher, mas também de todas as mulheres que cabem dentro de um corpo só. Uma peça que reverbera após o fim, deixando no ar a sensação de ter assistido a algo maior do que a soma de seus elementos — algo que só a boa arte é capaz de proporcionar.

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