Banco Central mantém Selic em 15% e adia expectativa de corte para 2026

Banco Central

O Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano pela terceira vez consecutiva, em decisão divulgada na noite desta quarta-feira (5), após reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O índice permanece no maior patamar desde julho de 2006, quando Lula também estava em seu primeiro mandato. O Copom afirmou que a taxa atual é suficiente para garantir a convergência da inflação à meta de 3%, mas indicou que o nível elevado deve se manter por um “período bastante prolongado”.

Segundo o comunicado, a decisão reflete o cenário de incertezas internas e externas e busca assegurar a estabilidade dos preços. “O Comitê avalia que a estratégia de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”, informou o BC. O texto reforça ainda que a autoridade monetária seguirá vigilante e poderá ajustar a política monetária caso as condições mudem.

Com essa posição mais cautelosa, o mercado financeiro passou a apostar que a taxa básica de juros continuará em 15% até o início de 2026, com os primeiros cortes sendo avaliados apenas entre janeiro e março do próximo ano. Apesar de a inflação mostrar sinais de desaceleração, o BC mantém o discurso de que é preciso “perseverança, firmeza e serenidade” para consolidar a meta de preços.

A postura do Banco Central tem gerado críticas do governo. O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltaram a defender uma redução nos juros, alegando que o nível atual é incompatível com uma inflação próxima de 4,5%. “Não tem como sustentar 15% de juros reais com a inflação batendo 4,5%. Se eu fosse diretor do Banco Central, votava pela queda”, afirmou Haddad em evento realizado em São Paulo.

Mesmo diante da pressão política, o Copom reforçou que a taxa permanecerá em campo contracionista enquanto as projeções de inflação seguirem acima da meta. O último Boletim Focus mostra expectativa de 4,6% para o fechamento de 2025 e de 3,6% para 2026. Para o segundo trimestre de 2027, prazo definido pelo colegiado para o alcance da meta, a estimativa é de 3,3%.

O comunicado também mencionou que, apesar de leve melhora no comportamento dos preços, as medidas subjacentes de inflação continuam elevadas. O IPCA-15 de setembro, por exemplo, teve alta de 0,48%, mas o acumulado de 12 meses ainda está em 5,32%, acima do teto da meta de 4,5%.

Em relação à economia real, o BC apontou que a “trajetória de moderação do crescimento” segue conforme o esperado, embora o mercado de trabalho mantenha sinais de dinamismo. Já sobre o cenário internacional, a instituição destacou a incerteza gerada pela política econômica dos Estados Unidos e pelas tensões geopolíticas, o que exige cautela de países emergentes.

Analistas do mercado interpretaram o comunicado como uma demonstração de maior confiança do BC na eficácia da atual política de juros, mas sem qualquer sinalização sobre o momento exato de início dos cortes. “O BC não quis passar nenhuma mensagem de quando começa a reduzir, ainda fica muito em aberto”, avaliou Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa do Itaú Unibanco.

Para Arnaldo Lima, da Polo Capital, a decisão reforça a solidez institucional da autarquia. “Parece que o CNPJ fala mais alto do que o CPF dos diretores. Estamos colhendo os frutos de uma diretoria técnica, mesmo em meio a mudanças”, disse. Já Marco Caruso, do Santander, destacou que a hipótese de corte ainda em dezembro praticamente saiu da mesa, embora o reconhecimento de avanços na desinflação possa antecipar o debate para o início de 2026.

A expectativa geral entre economistas é que a Selic comece a cair no primeiro trimestre do próximo ano, caso a inflação siga em trajetória de desaceleração e as projeções do mercado continuem convergindo para a meta estabelecida. Até lá, o Banco Central mantém a estratégia de “paciência e prudência” como pilares de sua política monetária.

Limpatech