Baixada Santista: O Voto em Terras Marcadas pela Violência Policial
As Operações Escudo e Verão, entre 2023 e 2024, deixaram um rastro de mais de cem mortos em bairros periféricos da Baixada Santista. Jovens fuzilados, pessoas com deficiência executadas e crianças vítimas de balas perdidas são apenas alguns dos casos que chocaram o país e foram documentados pelo Metrópoles na série especial “Baixada Sangrenta”.
Meses após essas ações violentas, a população dessas mesmas áreas periféricas foi às urnas. Os resultados mostraram que muitos dos vizinhos das vítimas votaram em políticos diretamente ligados à condução dessas operações, como o governador reeleito Tarcísio de Freitas e o senador eleito Guilherme Derrite, então secretário de Segurança Pública. A votação em regiões como Santos e São Vicente levanta questões cruciais sobre a relação entre segurança pública, medo e escolha eleitoral.
Especialistas em segurança pública analisam o cenário, apontando que a sensação de insegurança e a busca por soluções imediatas podem influenciar o voto, mesmo em comunidades que sofreram diretamente com a violência policial. Conforme análise de especialistas, a forma como a segurança pública é tratada no debate político e as estratégias utilizadas por alguns governantes parecem ressoar com eleitores em busca de respostas rápidas, mesmo que controversas.
A Lógica do Medo e a Validação das Operações Policiais
A antropóloga Jacqueline Muniz, estudiosa de segurança pública, explica que a lógica por trás de tais resultados eleitorais é complexa. Ela ressalta que, em regimes de medo, a violência policial pode ser percebida por parte da população como uma solução, pois “matar tem ‘mérito’ e morrer tem ‘merecimento’”. Essa percepção, segundo Muniz, é perigosa e valida práticas de exceção, onde a “matança dá voto”.
Muniz aponta que as populações de bairros alvos de operações policiais vivem em constante incerteza, com suas rotinas sabotadas. A dificuldade de acesso a serviços básicos e o medo constante podem levar a um desejo por normalidade, fazendo com que o discurso do “mata tudo de uma vez” ganhe força, não por concordância com a violência em si, mas por uma questão prática de tentar retomar o controle sobre suas vidas.
A especialista também critica a forma como a insegurança é utilizada como ferramenta política. Segundo ela, políticos autoritários exploram o medo imediato da população com bravatas e discursos duros, oferecendo soluções operacionais que, no fim, podem desmoralizar a própria polícia e não resolver os problemas estruturais. Ela descreve esse processo em três etapas: o “susto na população”, o “surto de autoridade” e os “soluços operacionais”.
Resultados Eleitorais em Zonas Críticas da Baixada Santista
Em Santos, especificamente na 118ª zona eleitoral, que abrange bairros como Vila dos Pescadores e Saboó, que foram palco de operações letais, os resultados eleitorais foram significativos. Para presidente, Flávio Bolsonaro ficou em segundo lugar, muito próximo de Lula. Já Tarcísio de Freitas foi reeleito governador com uma margem considerável sobre Fernando Haddad, e Guilherme Derrite liderou a disputa ao Senado.
O Morro São Bento, também em Santos, local onde ocorreu a morte de Leonel Andrade Santos e seu filho de quatro anos durante operações policiais, mostrou forte apoio a Derrite na disputa pelo Senado. Ele foi o primeiro colocado em grande parte das seções eleitorais do bairro, demonstrando uma tendência de voto que ignora, para muitos, o histórico recente de letalidade policial.
Na 340ª zona eleitoral de São Vicente, onde ocorreu a chacina do Rio Branco, uma das ações mais sangrentas das operações, Flávio Bolsonaro também superou Lula, Tarcísio venceu Haddad e Derrite foi o mais votado para senador. Em Guarujá, nas regiões da Vila Zilda e Vila Baiana, igualmente afetadas pela violência, Flávio, Tarcísio e Derrite também obtiveram vitórias expressivas.
O Papel da Insegurança e a Dificuldade da Esquerda
Carlos Augusto Pereira de Almeida, pesquisador da UFABC, aponta que a análise do voto em relação às políticas de segurança é complexa. Ele concorda que as operações na Baixada Santista não trouxeram resultados positivos em termos de redução da criminalidade de forma sustentável, mas a sensação de insegurança patrimonial, como roubos e furtos, pesou mais na decisão do eleitor.
Segundo Almeida, a discussão sobre segurança pública ainda é superficial, focada em soluções como mais câmeras e presídios. Ele observa que as pessoas tendem a se alinhar com quem promete soluções repressivas, em vez de abordagens mais técnicas e humanizadas. A esquerda, por sua vez, enfrenta dificuldades em debater o tema, sendo frequentemente associada a posições favoráveis aos criminosos, o que dificulta a sua penetração em pautas de segurança pública.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) defende as operações como necessárias para combater o crime organizado e o tráfico de drogas, apresentando dados sobre prisões, apreensões de armas e drogas, e redução de roubos em algumas áreas. A SSP afirma que o enfrentamento ao crime exige atuação contínua e apuração de eventuais excessos policiais.
O Estado e a Governança do Crime
Jacqueline Muniz vai além, afirmando que o Estado é, em certa medida, a “agência reguladora do crime”, rejeitando a ideia de “Estado paralelo” ou “ausente”. Para ela, o crime organizado, em suas diversas formas, como tráfico de drogas ou de pessoas, não existe sem a conivência e participação de agentes estatais em diferentes níveis, desde a base até os altos escalões políticos. A “governança do crime começa dentro dos palácios”, declara.
A especialista também traça paralelos entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ela associa a unidade do crime em São Paulo ao mito do bandeirantismo e à unidade política em torno de interesses. Já o Rio de Janeiro, por ter sido capital federal, apresenta uma estrutura mais fragmentada, com múltiplas facções disputando territórios, o que ela chama de “capitanias hereditárias”.
Muniz finaliza com um alerta sobre a relação entre o governante e o povo: “O seu vigia, quanto mais forte que você, senta na sua cadeira e governa em seu lugar. Se fraco demais, ele se milicia. Um e o outro inviabilizam a vida democrática, alternância de poder, validação de voto e tudo mais”. A análise do voto em bairros afetados pela violência policial na Baixada Santista, portanto, expõe a complexa teia de medo, política e a busca por segurança que molda as escolhas eleitorais no Brasil.













