Um esquema criminoso revelou como traficantes do Rio usavam carros clonados para transportar drogas do Paraguai até São Paulo. A investigação, conduzida pelas delegacias da 18ª DP (Praça da Bandeira) e da 53ª DP (Mesquita), mostrou que o crime envolvia roubo de veículos na capital fluminense, clonagem e utilização desses automóveis em operações do tráfico interestadual.
O caso ganhou destaque após a apreensão, em maio do ano passado, de um VW T-Cross branco pela Polícia Civil paulista. Dentro do veículo, foram encontradas malas com drogas vindas do Paraguai. O motorista, que seguia para Sorocaba, foi preso em flagrante. Pouco depois, os investigadores descobriram que o carro havia sido roubado 22 dias antes no Rio de Janeiro, durante um assalto na Zona Norte.
De acordo com as apurações, favelas dominadas pelo Comando Vermelho funcionavam como centros de recepção de veículos roubados. Nesses locais, os carros eram comprados de assaltantes por valores entre R$ 5 mil e R$ 8 mil, clonados e revendidos. O processo incluía adulteração de chassi, falsificação de documentos e troca de placas, criando uma estrutura lucrativa que financiava parte das operações do tráfico.
O principal nome ligado à fraude é Juan Roberto Figueira da Silva, o Cocão, considerado um dos maiores clonadores de veículos do estado. Preso em maio do ano passado, ele confessou que conseguia remarcar o chassi de um carro em menos de uma hora. Em depoimento, revelou que pagava R$ 200 para retirar rastreadores e revendia veículos por até R$ 12 mil. Cada documento falsificado custava R$ 100, e as placas adulteradas eram vendidas por R$ 500.
Nesta terça-feira, a Polícia Civil indiciou 20 integrantes do Comando Vermelho, incluindo os chefes Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP, por participação no esquema. Segundo as investigações, cada criminoso tinha função específica — desde o roubo e clonagem até a autorização de entrada dos carros nas favelas. O esquema contava com o aval da cúpula da facção e garantia altos lucros por sua agilidade e liquidez.
O delegado Sandro Caldeira, titular da 53ª DP, explicou que a operação buscou responsabilizar tanto os executores quanto os líderes. O grande avanço foi aplicar a Teoria do Domínio Final do Fato, que permite enquadrar os chefes que controlam e lucram com os crimes, mesmo sem executá-los diretamente, afirmou.
Já o delegado Thiago Neves Bezerra, titular da 18ª DP, destacou a importância estratégica da ação. Essa operação representa uma mudança de paradigma: passamos a atacar as estruturas de comando e o poder financeiro das facções, e não apenas os criminosos da base, disse ele.
Foram expedidos 20 mandados de prisão preventiva pelo Tribunal de Justiça do Rio. Além de Beira-Mar e Marcinho VP, também foram alvos Ricardo Chaves de Castro Lima, o Fu da Mineira; Ocimar Nunes Robert, o Barbozinha; William Sousa Guedes, o Corolla; e Juan Roberto Figueira da Silva, o Cocão, já detido.














