Tarcísio de Freitas se afasta do bolsonarismo e mira 2030, gerando incômodo em aliados de Flávio Bolsonaro

Tarcísio de Freitas sinaliza distanciamento do bolsonarismo e articula projeto para 2030

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem demonstrado um afastamento gradual do núcleo bolsonarista, enquanto, paralelamente, alimenta conversas sobre uma possível candidatura à presidência em 2030. Essa postura tem gerado desconforto entre aliados de Jair Bolsonaro e do candidato Flávio Bolsonaro (PL).

Anunciado em fevereiro como coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, Tarcísio tem adotado um discurso que diverge em pontos cruciais de declarações recentes da família Bolsonaro. A falta de empenho explícito na campanha de Flávio, apesar de abordar pautas nacionais, tem sido observada com preocupação por parte da base bolsonarista, que considera o apoio do governador decisivo para o sucesso de Flávio no estado.

As divergências ficaram evidentes em agendas recentes. Na quinta-feira (20/8), Tarcísio faltou à primeira agenda de Flávio em São Paulo, participando de uma sabatina com jornalistas enquanto o candidato visitava um mercado e uma escola de futebol. Essa separação de agendas, mesmo com a posterior participação em um almoço com Flávio e o prefeito Ricardo Nunes (MDB), reforça a percepção de um distanciamento estratégico, conforme apurado pelo Metrópoles.

Divergências em pautas e agendas

Um deputado estadual do PL em São Paulo, falando sob reserva, expressou preocupação com a falta de empenho de Tarcísio na eleição de Flávio. Segundo ele, o apoio do governador e do Republicanos é fundamental para uma vitória presidencial. A ausência de Tarcísio em eventos de Flávio e a participação em sabatinas paralelas indicam uma estratégia de comunicação distinta, focada em consolidar sua própria imagem e agenda.

Apesar de ter participado de agendas conjuntas com Flávio no interior paulista neste fim de semana, incluindo a Festa do Peão de Barretos, onde chamou o filho de Bolsonaro de “herdeiro do projeto Bolsonaro”, as declarações de Tarcísio em outras ocasiões têm contrariado discursos bolsonaristas. Em um encontro com mulheres em Osasco, por exemplo, o governador se manifestou contra o encarceramento em massa, uma pauta defendida por Flávio, que almeja replicar o modelo de Nayib Bukele em El Salvador.

Defesa das urnas eletrônicas e rechaço a extremos

Em outra demonstração de divergência, Tarcísio defendeu a segurança das urnas eletrônicas, afirmando que “isso não é mais pauta, não deve ser”. Essa posição contrasta com os ataques frequentes de Jair e Flávio Bolsonaro ao sistema eleitoral. O governador também evitou se rotular como um candidato puramente bolsonarista, declarando que, embora se identifique com valores do grupo, “rechaça aquilo que não faz sentido”, citando como exemplo o esforço para elevar a cobertura vacinal em São Paulo, enquanto Eduardo Bolsonaro se manifestava contra a obrigatoriedade de vacinas.

Flávio Bolsonaro depende da imagem de Tarcísio

O cientista político e professor da FGV, Marco Teixeira, avalia que a dinâmica da campanha atual é invertida em relação a 2022. Se antes Tarcísio dependia do bolsonarismo para sua eleição, agora é Flávio Bolsonaro quem necessita da proximidade com o governador para impulsionar sua candidatura. “O Flávio depende hoje, para alavancar [nas pesquisas], de uma proximidade grande do Tarcísio”, afirma Teixeira.

Essa dependência limita a capacidade de Flávio de criticar abertamente a postura de Tarcísio. Além disso, a aliança política de Tarcísio em São Paulo inclui partidos que não apoiam Flávio para a presidência, como o PSD, e o próprio Republicanos mantém neutralidade na disputa nacional, complicando o cenário para o candidato do PL.

Discurso nacionalizado e projeto para 2030

A campanha de Tarcísio tem mesclado pautas estaduais com um discurso nacionalizado, abordando temas como o fim da reeleição e críticas à política econômica do governo Lula. Membros da campanha negam que o discurso seja nacionalizado, afirmando que o foco é São Paulo, mas que o governador é questionado sobre assuntos nacionais, especialmente em reuniões com o mercado financeiro. Segundo Teixeira, essa postura está diretamente ligada à intenção de Tarcísio de se candidatar em 2030, pois seu projeto depende de um cenário onde Flávio não se reeleja ou não concorra novamente.

Limpatech