Informações da Secretaria de Segurança Pública do Rio (Sesp) apontam que o acordo entre PCC e CV vem se fortalecendo nos bastidores do crime organizado. Segundo a pasta, as duas facções têm se aliado para atuar na economia formal do estado, principalmente no setor de combustíveis, considerado um dos mais vulneráveis para lavagem de dinheiro. Em troca, o grupo paulista estaria compartilhando rotas de transporte de drogas e armas com os criminosos do Rio.
De acordo com o secretário de Segurança, Victor Santos, a aproximação é movida por interesses comerciais e não por domínio territorial. O PCC está em um patamar diferente do CV. Atua na economia formal, com padrão de máfia. Por isso, eles enxergam oportunidade de fazer negócios com outras facções que não possuem o mesmo nível de sofisticação, explicou o secretário.
A aliança entre as facções tem chamado atenção das autoridades em meio à expansão do Comando Vermelho, que já alcança 25 estados e o Distrito Federal. A série “Conexões do Crime”, publicada pelo jornal EXTRA, mostra como as parcerias entre grupos criminosos fluminenses, incluindo o Terceiro Comando Puro (TCP), ampliaram conflitos e exportaram guerras para outras regiões do país.
No âmbito local, as investigações revelam que o acordo tem foco exclusivo na exploração de negócios formais, sem interesse em disputas de território. Relatórios de inteligência da Sesp indicam que o PCC busca apenas ampliar canais de lavagem de dinheiro e utilizar a estrutura comercial do Rio para diversificar seus lucros.
Em abril deste ano, dois postos de gasolina — um em Cascadura, na Zona Norte, e outro em São Gonçalo, na Região Metropolitana — foram fechados por suspeita de ligação com o grupo paulista. Ambos funcionavam sem licença da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e vendiam combustível adulterado. Durante a operação, policiais tentaram identificar possíveis laranjas, cúmplices e financiadores.
O setor de combustíveis é considerado estratégico para o crime organizado por movimentar grandes quantias em espécie e possuir histórico de evasão fiscal e falsificação de notas. Segundo os investigadores, essa prática cria concorrência desleal e prejudica empresas legalizadas.
Mensagens interceptadas pela polícia também reforçam a existência do acordo entre PCC e CV. Em conversas extraídas do celular de Michael Silva, conhecido como Neymar do PCC, um dos comparsas — identificado como Orelha — relatava que estava escondido no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, e discutia sobre novos negócios com criminosos locais. Já conversei com o amigo do Rio. Estão no aguardo para fazer o remanejamento, dizia a mensagem de 7 de julho de 2024. O diálogo termina com a frase: Bora revolucionar o Rio.
Segundo Victor Santos, essa relação reforça o caráter financeiro da parceria. Eles não querem se estabelecer territorialmente aqui, da mesma forma que o CV não pretende dominar São Paulo. O interesse é na economia formal, usando empresas e postos para lavar dinheiro, além de compartilhar rotas de entrada de drogas e armas, afirmou.
O Comando Vermelho também tem se beneficiado da aproximação com o PCC. A troca de rotas e de know-how logístico ampliou a capacidade da facção fluminense de movimentar seus recursos. Uma investigação recente revelou que o CV movimentou cerca de R$ 6 bilhões em um ano — parte desse valor teria passado por contas ligadas ao 4TBank, banco digital suspeito de ter sido criado por integrantes do PCC.
A Secretaria de Segurança reforça que o monitoramento das transações financeiras e das ligações entre as duas facções continua. O foco é impedir que a economia formal do Rio se torne refém de estratégias de lavagem de dinheiro em grande escala, num cenário cada vez mais sofisticado e empresarial do crime organizado.














