A Santa Casa da Misericórdia recebeu R$ 88 milhões após o fim de uma disputa judicial e agora busca retomar sua capacidade de atendimento e reorganizar as finanças. O valor, considerado um dos maiores já destinados à instituição neste século, inclui dinheiro, ações e imóveis.
A quantia foi deixada em testamento pelo advogado José Maria Valdetaro Vianna, que morreu em novembro de 2022, aos 91 anos. Sem filhos, ele destinou toda a herança à entidade, destacando no documento o reconhecimento ao trabalho filantrópico realizado ao longo dos anos.
A liberação dos recursos só foi possível após o encerramento de uma disputa judicial que durou cerca de três anos. Uma ex-empregada doméstica entrou na Justiça para tentar o reconhecimento de união estável com o advogado, o que poderia alterar o destino da herança. A tese, no entanto, foi rejeitada, garantindo o cumprimento integral do testamento em favor da instituição.
— É a cereja do bolo de um trabalho de gestão de crise de cinco anos. Esse dinheiro veio na hora certa. Se fosse antes, poderia ter desaparecido no meio da dívida — celebrou Maurício Osthoff, mordomo jurídico da entidade.
A Santa Casa atravessa um processo de reestruturação após anos de dificuldades financeiras. O passivo trabalhista, que já chegou a cerca de R$ 150 milhões, foi reduzido quase pela metade com a venda de imóveis e a adoção de um plano de amortização.
Ainda assim, a instituição mantém dívidas fiscais estimadas em aproximadamente R$ 300 milhões e débitos cíveis que ultrapassam R$ 500 milhões. Parte significativa da herança será destinada à quitação de pendências trabalhistas, consideradas prioritárias por estarem em fase de execução judicial.
O restante dos recursos deverá ser utilizado para retomar áreas que estão paralisadas, modernizar unidades e ampliar a capacidade de atendimento.
Responsável pela gestão patrimonial da irmandade, Cláudio André Castro destacou o papel da venda de ativos no processo de recuperação financeira.
— Vendemos imóveis que não eram rentáveis para pagar dívidas. A Santa Casa se mantém da gestão do seu patrimônio. É um esforço grande para manter a assistência funcionando — afirmou.
Atualmente, a rede da instituição inclui o Hospital Geral, localizado no Centro do Rio, e uma unidade na Gamboa. Juntas, realizam cerca de 13 mil atendimentos por mês, com consultas a preços acessíveis, em torno de R$ 100, voltadas principalmente à população de baixa renda.
Além da assistência médica, a Santa Casa mantém projetos sociais, como um educandário em tempo integral no Humaitá e o atendimento a cerca de 300 idosos em unidades localizadas em Jacarepaguá e Cascadura.
— É uma medicina de ponta a preços acessíveis. A gente segue atendendo, mas ainda não conseguimos retomar a parte cirúrgica, que está interrompida. A ideia agora é usar esse fôlego para recuperar essas áreas e fazer a instituição renascer — afirmou o cirurgião plástico Ricardo Cavalcanti, mordomo do Hospital Geral.
Com mais de quatro séculos de história, a Santa Casa da Misericórdia acumula um patrimônio cultural e histórico relevante, incluindo construções tradicionais e acervos ligados à medicina no Brasil.
A nova herança reforça uma tradição antiga da instituição, que ao longo dos anos recebeu doações de benfeitores. No entanto, esse tipo de contribuição vinha se tornando mais raro, especialmente após crises financeiras e episódios que afastaram potenciais doadores.














