O reencontro após tragédia que arrasou a cidade de Armero, na Colômbia, mudou para sempre a vida de Jenifer de la Rosa e Ángela Rendón. Trinta anos depois de o vulcão Nevado del Ruiz destruir o município e separar famílias inteiras, duas mulheres que cresceram sem saber uma da outra descobriram que eram irmãs. A ligação entre elas só veio à tona quando Jenifer, conhecida como “filha do vulcão”, decidiu voltar ao país em busca de respostas sobre seu passado e sobre a mãe biológica.
Jenifer tinha apenas uma semana de vida quando sobreviveu à avalanche de lama, água e pedras que, em 13 de novembro de 1985, devastou Armero. A erupção do Nevado del Ruiz, a mais de 5 mil metros de altitude, derreteu parte do gelo e da neve nas encostas e provocou deslizamentos violentos. O material misturado ao solo formou um fluxo pesado, os lahars, que desceu sem controle e soterrou casas, ruas e milhares de moradores. Cerca de 20 mil pessoas morreram em Armero, de um total de 29 mil habitantes, e outras milhares perderam a vida em municípios vizinhos.
Hoje, o antigo município é um grande memorial a céu aberto no departamento de Tolima. Ruínas, parques, cemitérios e monumentos preservam a memória da tragédia. Sobreviventes visitam o local todos os anos, ao lado de turistas que buscam entender a dimensão do desastre. Muitas das crianças resgatadas na época foram levadas para outras cidades ou países, em processos de adoção que, até hoje, levantam dúvidas e questionamentos.
Foi esse o caso de Jenifer. Ainda bebê, ela foi levada para um abrigo onde estavam outros sobreviventes. Lá, teria sido cuidada por socorristas da Cruz Vermelha enquanto a mãe tentava voltar à casa destruída. “Uma socorrista me contou que minha mãe retornou aos escombros e nunca mais voltou. Da minha mãe, nunca soube de mais nada, só que mudou de nome”, conta em entrevista à BBC News Mundo. O pai, segundo foi informado à família espanhola que a adotou, teria morrido durante a tragédia.
Algum tempo depois, Jenifer foi levada a um orfanato em Manizales, cidade próxima ao Nevado del Ruiz, e adotada por um casal da Espanha. Os novos pais a levaram para Valladolid, a cerca de 200 quilômetros de Madri, onde ela cresceu. Desde pequena, eles contaram que a filha vinha da Colômbia e que sua história estava ligada ao vulcão. Mesmo assim, a sensação de não pertencer totalmente àquela realidade a acompanhou por anos.
Na adolescência, as perguntas sobre origem se tornaram mais incômodas. Marcada fisicamente por traços diferentes dos pais e parentes, ela diz que se cansou de responder de onde vinha. “Eu era muito visada. A pergunta de onde eu sou era frequente e continuam me fazendo até hoje”, relembra. Em um certo momento, decidiu bloquear o tema Colômbia e evitar o assunto. Mudou para outros países, entre eles o Brasil, onde se sentiu mais próxima da natureza e da cultura latino-americana — e acabou tendo como melhor amiga justamente uma colombiana.
Já na vida adulta, de volta à Espanha, Jenifer estabeleceu uma meta: retornar à Colômbia quando completasse 30 anos. Queria não só rever o país de origem, mas também registrar esse processo em um documentário sobre a própria história. Em 2016, começou a transformar essa ideia em ação e iniciou o que hoje chama de sua grande obsessão: encontrar a mãe biológica.
O primeiro passo foi procurar a Fundação Armando Armero, entidade dedicada a reconstruir a memória da antiga cidade e a aproximar adotados de suas famílias de origem. A organização estima que cerca de 500 crianças tenham sido encaminhadas para adoção após o desastre, em processos que misturaram procedimentos regulares e irregulares. Nem todas sabem que vieram de Armero — e algumas, como De la Rosa, vivem no exterior.
Nas idas e vindas à Colômbia, Jenifer revisitou locais marcantes, encontrou pessoas que a tinham visto ainda bebê e ouviu relatos de quem esteve com ela nos abrigos logo após a tragédia. “Encontrei uma mulher cuja casa frequentei quando pequena e onde aprendi a andar. E a socorrista da Cruz Vermelha que cuidou de mim quando bebê e me falou da minha mãe e de como eu me parecia com ela”, recorda. Aos poucos, foi entendendo o contexto da Colômbia dos anos 1980, marcada pela violência política, pela atuação de guerrilhas como o M-19 e as Farc e pelo narcotráfico.
A própria vida de Jenifer se cruza com essa fase conturbada. Ela nasceu em 6 de novembro de 1985, mesmo dia em que guerrilheiros do M-19 atacaram o Palácio da Justiça, em Bogotá, episódio que terminou com cerca de 100 mortos após reação militar. Uma semana depois, o vulcão entrou em erupção e destruiu Armero. “Era o pior momento para nascer”, analisa, ao relacionar o ambiente de caos e falta de estrutura com o modo como as adoções foram conduzidas.
Durante anos, Jenifer digitou o nome da mãe no Google sem encontrar nada. Até que um dia, uma nota de jornal a fez parar. Nela, uma mulher chamada Ángela Rendón, de Barrancabermeja, buscava informações sobre sua mãe biológica, que a havia deixado com uma cuidadora quando ela tinha três meses de vida. O nome da mãe de Ángela era o mesmo que Jenifer procurava há tanto tempo: Dorian Tapazco Téllez.
“A primeira coisa que fiz foi me proteger e pensar que poderia ter havido uma troca de nomes, mas que eu não poderia ter uma irmã”, conta. A Fundação Armando Armero entrou em cena. O diretor, Francisco González, procurou Ángela, explicou o caso e coletou amostras de DNA das duas mulheres para análise. Algumas semanas depois, o resultado confirmou o que parecia improvável: elas eram irmãs.
O momento em que a notícia é dada foi registrado no documentário de Jenifer. “Ai, é verdade, Francisco? Ai, que felicidade”, diz Ángela, emocionada, ao saber da existência da irmã. O primeiro encontro aconteceu na casa de González, onde as duas se cumprimentaram timidamente com um “oi, tudo bem?” e um aperto de mão. “Na primeira vez em que a vi, o abraço foi sentido, pensei que era uma estranha, alguém de fora. Minha primeira reação foi fria, mas ela transbordou de amor”, descreve Jenifer. Já Ángela lembra que encarou a descoberta como um presente de aniversário antecipado.
Com o tempo, as semelhanças apareceram. Jenifer conta que só se deu conta de alguns traços em comum quando conheceu Paola, sobrinha que se parecia muito com ela na adolescência. As duas irmãs chegaram a conceder uma entrevista coletiva ao lado da fundação, que reuniu dezenas de jornalistas e deu visibilidade ao reencontro. Mas a alegria veio acompanhada de questões difíceis.
Sobre a mãe, ainda há mais perguntas do que respostas. As irmãs souberam que Dorian passou pela prisão e mudou de nome, algo que Jenifer tem dificuldade em aceitar. “As pessoas me dizem que é possível que minha mãe tenha sido uma pessoa deslocada pelo conflito armado e que, por isso, tenha conseguido a mudança de nome”, explica. Em meio à busca, elas também se depararam com frustrações e suspeitas em relação aos processos de adoção feitos após a tragédia.
Jenifer acredita que informações importantes foram escondidas deliberadamente em prontuários e documentos. “Nos dizem que, na época, os funcionários acharam que o melhor era facilitar a papelada para tornar mais simples que encontrássemos lares, mas também havia interesses”, afirma. Ela conta que chegou a conhecer o caso de uma pessoa cujo pai pagou US$ 5 mil para concluir a adoção. Em outro episódio, pessoas que a acolheram na infância acreditavam que ela havia ido para a Itália, e não para a Espanha, tamanha era a falta de controle.
Para ela e para Ángela, algumas pessoas com quem conversaram sabem mais do que revelam. “Entendo que são pessoas desconfiadas pelo trauma da guerra, mas tenho suspeitas”, diz. A Fundação Armando Armero e vítimas da tragédia têm pedido com frequência ao Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar mais transparência sobre os protocolos usados para colocar crianças em adoção após o desastre de Armero.
Às vésperas dos 40 anos da tragédia, o Instituto anunciou a digitalização e recuperação do chamado “Livro Vermelho”, que reúne registros de menores resgatados e colocados sob proteção estatal após a avalanche. Segundo a atual direção, comandada por Astrid Cáceres, as normas da época tinham lacunas que tornam difícil classificar automaticamente os casos como regulares ou irregulares. “Para isso, precisamos investigar todos antes de tirar conclusões”, disse à BBC News Mundo.
De acordo com Francisco González, mais de 400 famílias e 75 adotados já passaram por exames de DNA com apoio da fundação. Até agora, quatro reencontros foram possíveis graças à comparação genética. Mesmo assim, todos os anos, sobreviventes continuam chegando a Armero na esperança de encontrar pistas de filhos ou parentes desaparecidos.
Jenifer acredita que o país ainda tem uma dívida com essas famílias. Muitas não buscam corpos, mas sinais de que aqueles bebês resgatados na lama cresceram em algum lugar do mundo. E, enquanto percorre arquivos, ruínas e memórias, ela tenta, ao lado da irmã recém-descoberta, construir a vida que as duas poderiam ter vivido se a tragédia do vulcão não as tivesse separado.














