Queixas de barulho dobram no Rio em 2025 e viram novo foco de conflito urbano

bar no Leblon

As queixas de barulho no Rio explodiram em 2025, dobrando em relação ao ano anterior e tornando o tema um dos maiores focos de conflito urbano da cidade. Segundo dados do Data.Rio, compilados pelo jornal O Globo, as reclamações por perturbação do sossego registradas na central 1746 da Prefeitura passaram de 9.370 em 2024 para 19.639 até 19 de agosto deste ano.

Entre os bairros mais barulhentos, Leblon e Botafogo lideram a lista, ao lado de Camorim, Copacabana e Barra da Tijuca. A expansão dos chamados “baixos” — áreas de concentração de bares e casas noturnas — e a fiscalização precária estão entre os fatores apontados por moradores e especialistas para explicar o aumento das reclamações.

A escalada do ruído urbano

No Baixo Leblon, um dos redutos mais tradicionais da boemia carioca, mesas e grupos de clientes ocupam as calçadas e até parte da rua. Para Virgínia Fernandes, diretora da Associação de Moradores e Amigos do Leblon, a situação está fora de controle.
“Cada vez piora mais. Virou moda as pessoas ficarem em pé na rua. Os bares alugam lugares pequenos e acabam se expandindo para fora. Quando fecham, chega o pessoal do delivery, e a confusão continua”, afirmou.

Em Botafogo, onde a vida noturna cresce a cada ano, o excesso de ruído virou pesadelo para os moradores. Um residente da Rua Fernandes Guimarães, que preferiu não se identificar, contou que nem as janelas acústicas resolvem. “Os bares fecham por volta das três da madrugada, mas o barulho segue até o amanhecer. Fecham a rua, e até carro de polícia tem dificuldade de passar”, relatou.

Quando o lazer vira transtorno

A psicóloga clínica Francilene Torraca, doutoranda pela UFRRJ, avalia que o fenômeno está ligado também ao comportamento pós-pandemia.
“Depois da pandemia, as pessoas passaram a valorizar mais o silêncio e a rotina. Ao mesmo tempo, estão mais ansiosas e intolerantes ao estresse, o que reduz a paciência com barulhos e festas”, explicou.

A administradora Michele Elias, moradora de Botafogo, contou que o ruído constante já afetou a saúde da família. “Minha filha de oito anos não consegue dormir no quarto dela. Precisei procurar um psiquiatra para que me receitasse remédio para dormir”, disse.

Barulho sem fronteiras

O problema se estende à Zona Norte. Em Olaria e Vista Alegre, moradores relatam o mesmo drama. Um residente da Rua Bariri contou que convive há meses com o som alto vindo de um bar com música ao vivo. “Cheguei a registrar 71 decibéis dentro de casa, acima do limite permitido. Vou vender o apartamento. A saúde da minha família vem primeiro”, desabafou.

Fiscalização e operação “Ruído Zero”

Apesar das 419 multas e 1.215 notificações emitidas em 2025, o problema está longe de uma solução definitiva. Segundo o secretário municipal de Ordem Pública, Marcus Belchior, a prefeitura prepara uma operação chamada “Ruído Zero”, com blitzes em áreas críticas e campanhas de conscientização.
“Vamos buscar soluções tecnológicas e reforçar a fiscalização. O cidadão precisa continuar denunciando pelo 1746”, afirmou.

O presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), Fernando Blower, defende equilíbrio entre lazer e convivência. “Queremos orientar e informar para que os negócios possam continuar crescendo em harmonia com a vizinhança”, disse.

O aumento das queixas reforça um dilema cada vez mais comum na capital fluminense: como conciliar o pulsar da vida noturna com o direito ao silêncio de quem tenta descansar.

Posição Bairro Zona Número de reclamações
Leblon Zona Sul 2.184
Botafogo Zona Sul 1.976
Barra da Tijuca Zona Oeste 1.742
Copacabana Zona Sul 1.512
Camorim Zona Oeste 1.088
Olaria Zona Norte 864
Vista Alegre Zona Norte 713
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