Três policiais civis são presos por extorquir comerciantes em São Gonçalo

Uma operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e da Corregedoria da Polícia Civil prendeu três policiais civis e um homem na manhã desta sexta-feira em São Gonçalo. O grupo é acusado de usar viaturas, fardas e armas da corporação para extorquir comerciantes dos ramos de reciclagem e ferro-velho, exigindo propina para não fechar os estabelecimentos.

As investigações do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ apontam que os agentes faziam falsas fiscalizações sem qualquer ordem de serviço ou registro formal. Além das prisões, as equipes cumpriram seis mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados durante a ação batizada de Operação Anhangá.

Esqueima cobrava até R$ 300 mil sob ameaça de falsa fiscalização

Segundo a denúncia do Ministério Público, os policiais escolhiam empresas de sucata, ferro-velho, reciclagem e depósitos de resíduos para realizar as abordagens. Eles alegavam supostas irregularidades ambientais ou administrativas e usavam o aparato do Estado para intimidar os empresários da região.

Em um dos casos registrados no dia 19 de agosto, o grupo abordou a empresa SOF Comércio e Reciclagem de Sucatas e exigiu R$ 300 mil para não prejudicar o funcionamento do local. Após negociação, o valor caiu para R$ 100 mil parcelados, além de uma taxa mensal de R$ 800. A vítima chegou a transferir R$ 25 mil via Pix para a conta do quarto envolvido, que atuava como operador financeiro do esquema.

Outra investida ocorreu contra a Afermota Comércio e Distribuidora de Ferros. Os agentes interceptaram um caminhão da empresa, seguiram até o depósito e se apresentaram como policiais da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente. Eles exigiram R$ 20 mil dos proprietários, abaixaram a pedida para R$ 15 mil após alegação de falta de dinheiro, mas as vítimas não realizaram nenhum pagamento e denunciaram o caso.

Como fica a região de São Gonçalo

Para o comerciante e o morador de São Gonçalo, o funcionamento dos estabelecimentos de reciclagem e ferros-velhos na região segue normalizado após o cumprimento dos mandados de prisão. As rotas de transporte público e a circulação no centro e nos bairros do município não sofreram alterações ou interdições devido à operação policial.

A Polícia Civil informou que reforçará a rotina de fiscalização interna para impedir que viaturas e insígnias oficiais sejam utilizadas por agentes fora de missões devidamente cadastradas. Quem possui comércio na região e passou por abordagens suspeitas nos últimos meses deve procurar as autoridades para prestar depoimento e ajudar nas investigações em andamento.

O que já se sabe sobre a investigação

A apuração do Ministério Público confirmou que não existia qualquer registro formal de ocorrência ou ordem de serviço que justificasse a presença dos policiais nas empresas abordadas. O uso de viaturas caracterizadas servia exclusivamente para dar aparência de legalidade aos crimes e coagir as vítimas.

A Operação Anhangá recebeu esse nome em referência à figura do folclore indígena brasileiro conhecida como protetora dos animais e das florestas contra caçadores predatórios. A alusão ironiza a atitude dos agentes que, usando a função de proteção ambiental da Polícia Civil, praticavam extorsão contra os comerciantes locais.

Quem responde pelo caso e qual a situação dos presos

A ação foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ em conjunto com a Corregedoria Geral da Polícia Civil. Os três policiais civis responderão a processo criminal por associação criminosa armada e extorsão, além de responderem a procedimentos administrativos disciplinares que podem resultar na expulsão dos quadros da corporação.

O quarto preso, que não é policial civil, responderá pelos mesmos crimes por atuar como recebedor e operador dos valores obtidos de forma ilícita. Todos os detidos foram encaminhados ao sistema prisional e estão à disposição da Justiça do Estado do Rio de Janeiro, onde aguardam as audiências de custódia.

Como denunciar abusos e extorção

O cidadão ou comerciante que for vítima de cobrança indevida, chantagem ou extorsão praticada por agentes públicos pode fazer a denúncia de forma totalmente anônima. A Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público mantêm canais abertos 24 horas para o recebimento de informações sobre desvios de conduta.

  • Disque Denúncia: (21) 2253-1177 (atendimento 24 horas e sigilo garantido).
  • Ouvidoria do MPRJ: Telefone 127 ou pelo site oficial mprj.mp.br.
  • Corregedoria Geral da Polícia Civil: Atendimento presencial na Rua da Relação, 42, Centro, Rio de Janeiro, ou pelo telefone (21) 2332-9900.
  • O que levar para registrar ocorrência: Datas, horários, dados de transferências bancárias, fotos, vídeos de câmeras de segurança e placas de veículos utilizados nas abordagens.
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