A Polícia Federal investiga a destruição de imagens do circuito interno de câmeras do prédio onde mora o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Segundo a investigação, a eliminação dos registros ocorreu após diligências no imóvel e levantou suspeitas de obstrução das apurações.
A suspeita é um dos fundamentos que levou a Justiça Federal a determinar a prisão temporária de Deivis, cumprida após o retorno dele de uma viagem aos Estados Unidos. A decisão considerou elementos apresentados pela Polícia Federal sobre a tentativa de inviabilizar a coleta de provas.
Em nota, a defesa informou que o investigado vem colaborando com as autoridades e negou qualquer destruição de imagens, documentos ou provas.
As apurações indicam que, após buscas realizadas em um apartamento em nome de Deivis, investigadores retornaram ao prédio para obter as gravações do sistema interno. Um HD foi entregue com supostos 30 dias de imagens, mas a análise revelou registros de apenas dois dias, referentes a dezembro.
Na sequência, a PF apurou que o sistema não possuía backup e contava com senhas administrativas capazes de apagar os arquivos, inclusive de forma remota. Para os investigadores, o acesso ao dispositivo por diferentes pessoas chamou atenção e reforçou a suspeita de eliminação deliberada do material.
Apartamento para “recreação”
Outro ponto que despertou o interesse da investigação foi a locação de um segundo apartamento no mesmo prédio, em andar inferior ao do ex-presidente do Rioprevidência. A justificativa apresentada a vizinhos era de que o imóvel serviria como área de recreação para o filho.
Segundo a Polícia Federal, o local era ocupado, na prática, pelos irmãos gêmeos Rodrigo e Rafael Schmitz, presos em Santa Catarina. A perícia conseguiu recuperar imagens em que os irmãos retiram itens do apartamento alugado e os transportam até um veículo na garagem do edifício.
Em registros recuperados, há ainda cenas de intensa circulação entre os dois imóveis, com transporte de mochilas, papéis e caixas. Para a PF, esse trânsito de materiais pode estar relacionado a documentos relevantes para a investigação.
Movimentações e suspeitas
As imagens analisadas também mostram a chegada do ex-presidente do Rioprevidência ao prédio acompanhado dos irmãos gêmeos. Em determinado momento, um deles deixa o apartamento com uma mochila e um papel nas mãos. Para os investigadores, o conteúdo poderia auxiliar nas apurações sobre a gestão do Rioprevidência.
A Polícia Federal sustenta que Deivis já tinha conhecimento de que era alvo de investigação, inclusive com procedimento em andamento na Polícia Civil. Ainda em dezembro, ele prestou depoimento sobre possíveis irregularidades na administração do fundo.
Para a Justiça Federal, o conjunto de indícios — incluindo o apagamento das imagens e a retirada de itens do imóvel — foi suficiente para caracterizar risco às investigações e justificar a prisão temporária.
Aportes de R$ 1 bilhão
O Rioprevidência informou ter realizado, nos últimos anos, aportes que se aproximam de R$ 1 bilhão em fundos ligados ao conglomerado de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal avalia que essas operações financeiras, consideradas suspeitas, expuseram o patrimônio da autarquia a riscos incompatíveis com sua finalidade.
A investigação apura nove operações realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, que resultaram na aplicação de cerca de R$ 970 milhões em letras financeiras emitidas por banco privado. O fundo é responsável pelo pagamento de benefícios previdenciários a cerca de 235 mil servidores do estado e seus dependentes.
O Banco Master está em liquidação extrajudicial desde novembro, após o Banco Central apontar insolvência e suspeitas de fraude. A PF investiga crimes como gestão fraudulenta, créditos falsos e lavagem de dinheiro.
O que diz o investigado
“O senhor Deivis Marcon vem, desde o início, colaborando com todas as autoridades que estão investigando os fatos, tendo apresentado sua renúncia para afastar qualquer dúvida sobre interferência nas apurações. Ele nega de forma peremptória que tenha promovido qualquer destruição de imagens, documentos ou provas, esclarecendo os fatos para afastar qualquer ilação de comportamento ilegal”, afirmou a defesa, em nota.














