A agressão contra a mulher, pela primeira vez, é considerada a situação de violência e criminalidade mais grave do Brasil, ao mesmo tempo em que a população ainda não enxerga, de modo amplo, agressões psicológicas como uma forma de violência. Esse quadro, até então inédito, foi mapeado pelo Movimento Mulher 360 – associação sem fins lucrativos que atua promoção da equidade de gênero – por meio de pesquisa realizada pelo Datafolha em abril com 2.004 pessoas acima de 16 anos em todo o país.
“Os dados mostram que a pauta sobre violência contra mulher deixou de ser percebida como tema privado ou tema feminino. Virou questão central de segurança pública e social”, resume a diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg.
“Por isso, acreditamos que transformar esse cenário exige atuação coletiva, conscientização e o comprometimento de atores públicos, privados e da sociedade”, acrescenta ela.
Segundo o Datafolha, 61% dos entrevistados apontam a violência contra a mulher como a forma de criminalidade mais grave do Brasil atualmente, percentual muito acima das demais situações apresentadas na pesquisa. O segundo tema mais citado foi o tráfico de drogas, com 16% das menções, seguido por assalto à mão armada nas ruas (10%).
Essa percepção é ainda mais forte entre as mulheres: 73% delas consideram a violência de gênero o problema mais grave, ante 49% dos homens. Entre mulheres de 16 a 24 anos, o índice chega a 77%, evidenciando a centralidade e a urgência do tema na percepção da população mais jovem.
Os dados também mostram que a maior parte da população (89%) avalia que os casos de violência de gênero aumentaram no último ano, índice ainda mais elevado entre as mulheres (94%) em comparação aos homens (83%). Além disso, a maioria dos entrevistados (71%) acredita que as mulheres hoje correm mais perigo dentro de casa do que fora dela.
Reforçando os índices da pesquisa, o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou, no início de maio de 2026, o aumento de 7,5% no registro de crimes de feminicídio no primeiro trimestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado.
Violência psicológica
Embora agressões físicas e ameaças sejam amplamente percebidas como violência de gênero, a violência psicológica e coercitiva ainda é negligenciada, mesmo que cause impactos profundos na saúde emocional, autoestima e liberdade das mulheres.
A pesquisa mostrou que 45% entendem que um homem impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração não é uma violência ou “pode ser uma violência ou não, depende da relação entre as pessoas envolvidas”. Neste caso, apenas 55% entendem como violência de fato. Os resultados são muito parecidos com o entendimento sobre um homem controlar as amizades de uma mulher com quem tem um relacionamento — 41% e 58%, respectivamente.
A violência patrimonial também ainda não é percebida de maneira ampla. Segundo o Datafolha, para 42% não é violência ou depende da relação o marido controlar o salário de sua esposa, contra 58% enxergando como violência. A situação muda apenas quando a ações físicas contra as mulheres, como um homem humilhar sua companheira em público (94% entendem como violência contra mulher) ou um marido forçar uma relação sexual com a esposa (95%).
“A pesquisa ajuda a mostrar que existe um vazio de reconhecimento justamente nas etapas anteriores à violência física, que são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave”, afirma Margareth. “Quando esses sinais não são reconhecidos socialmente como violência, homens e mulheres tendem a normalizar comportamentos abusivos por mais tempo. E isso reduz tanto a prevenção quanto a busca precoce por ajuda. Na prática, isso significa que muitas mulheres só conseguem reconhecer que estão vivendo violência quando ela já escalou para ameaças físicas, agressões ou risco concreto à integridade”, acrescenta.
Relatos
O Datafolha também pediu para que as mulheres consultadas respondessem a um módulo de autopreenchimento do questionário, sendo que 875 aceitaram, ou 84% das 1037 que participaram da pesquisa como um todo.
Neste caso, o levantamento mostrou que cada vítima já havia passado por 3 situações de violência de gênero, em média. Além disso, três em cada quatro mulheres (74%) viveram alguma situação de violência, sendo insultos ou xingamentos a mais comum (59%), seguido por ameaça de bater, empurrar ou chutar (45%); e ser seguida ou intimidada (43%).
Houve também relatos significativos sobre violência sexual (ser tocada e/ou agarrada sem permissão), com 38% das mulheres tendo passado por essa situação. Uma em quatro mulheres também já foi espancada ou sofreu tentativa de enforcamento, enquanto 22% disseram já ter sido ameaçadas com armas ou facas.
Culpa
A culpabilização da vítima ainda é um padrão, mostra o Datafolha: 61% dos entrevistados concordam que muitos casos de violência contra a mulher são consequência de opções erradas feitas por elas ao escolher um parceiro.
Essa percepção reforça como a responsabilidade pela violência ainda é frequentemente transferida às vítimas, e não aos agressores, o que pode contribuir para o silêncio, o medo e a permanência em relações violentas. Segundo o Datafolha, 37% das mulheres que sofreram a agressão de maior impacto no último ano afirmaram não ter tomado nenhuma atitude.
“O silêncio ainda é uma das principais consequências da violência”, diz a diretora-executiva do Movimento Mulher 360.
A baixa confiança nas instituições e na efetividade das leis contribui para esse cenário, já que apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las, percentual que sobe para 31% entre os homens.
Além disso, enquanto 55% dos homens consideram as leis de proteção às mulheres eficientes, o mesmo percentual de mulheres demonstra desconfiança em relação à sua efetividade. Esses números indicam um distanciamento entre a existência das leis e a realidade vivida pelas vítimas, aspecto que também apresenta diferença considerável na percepção entre homens e mulheres. Diante do medo, do sentimento de culpa, da falta de amparo e da desconfiança sobre possíveis consequências, muitas mulheres permanecem em situações de abuso e vulnerabilidade.
“A violência contra a mulher atravessa relações familiares, afetivas, profissionais e sociais, expondo um cenário que reforça a urgência de políticas públicas mais eficazes e maior participação de empresas e sociedade no combate a esse cenário”, diz Margareth.














