Padarias são forçadas a comprar farinha da milícia em Rio das Pedras

milícia em Rio das Pedras

A atuação da milícia em Rio das Pedras tem se intensificado e assumido novas formas de extorsão, segundo denúncias feitas por moradores da comunidade e reveladas pela TV Bandeirantes nesta segunda-feira (28). Além das já conhecidas cobranças por segurança e serviços básicos, o grupo estaria obrigando padarias locais a adquirir farinha de trigo exclusivamente com eles — prática que ficou conhecida como “taxa da farinha”.

De acordo com os relatos, os comerciantes não têm liberdade para escolher fornecedores e precisam pagar valores impostos pela milícia para manter seus estabelecimentos funcionando. Essa nova modalidade de coerção reforça o controle econômico que o grupo paramilitar exerce sobre a comunidade.

As imposições da milícia em Rio das Pedras não se limitam às padarias. A lista de extorsões inclui uma série de cobranças a moradores e comerciantes locais. Um exemplo é o pagamento de R$ 400 pela chave dos portões instalados pelos próprios criminosos, que controlam o acesso às ruas da favela. Além disso, há uma mensalidade de R$ 50 cobrada para garantir a suposta “segurança” oferecida pelo grupo.

Outras taxas incluem R$ 30 para recebimento de correspondência, até R$ 120 para estacionar em determinadas áreas e até R$ 800 para que vans possam circular pela comunidade. Comerciantes locais também são obrigados a pagar uma taxa semanal que pode chegar a R$ 100.

Ainda segundo informações veiculadas pela Band, os “gatos” de energia elétrica — ligações clandestinas feitas nos relógios de luz — também são explorados pela milícia. A taxa mensal por esse serviço ilegal teria sido reajustada recentemente, passando de R$ 50 para R$ 70.

Em março deste ano, moradores relataram ao noticiário que uma nova “taxa de segurança” passou a ser obrigatória para todos os residentes da região. A ampliação das cobranças estaria diretamente ligada ao financiamento de armas, à manutenção de advogados que defendem milicianos presos e ao pagamento de propinas a agentes públicos.

Pelo Censo de 2022, Rio das Pedras é a segunda maior favela do Rio de Janeiro em número de domicílios, com 23.846 moradias. A dimensão da comunidade amplia o alcance do poder territorial da milícia, que exerce forte influência sobre os aspectos econômicos e sociais da região.

Segundo um aposentado entrevistado pela emissora, o aumento nas extorsões também seria uma forma de fortalecer o grupo diante da ameaça do Comando Vermelho (CV), facção rival que tem tentado expandir seu território para dentro da comunidade. “A milícia quer mais dinheiro para comprar armas, pagar advogados e proteger os seus. Quem não paga, é ameaçado”, afirmou o morador, em depoimento à TV Bandeirantes.

A milícia em Rio das Pedras atua com um nível de organização que preocupa autoridades. O controle sobre o comércio, o transporte, os serviços básicos e agora até insumos alimentares indica uma estrutura consolidada que dificulta a atuação do poder público.

Apesar das denúncias recorrentes, moradores relatam medo de represálias e, por isso, muitas vezes evitam formalizar queixas ou fornecer seus nomes. A presença ostensiva de homens armados e o monitoramento constante dificultam ações de repressão e investigação por parte da polícia.

O Ministério Público e a Polícia Civil seguem apurando os casos relacionados à extorsão praticada pela milícia em Rio das Pedras, mas a falta de denúncias formais dificulta o avanço de operações mais amplas. A população, por sua vez, vive sob a tensão diária de uma lógica de ocupação armada e coerção econômica, com poucas alternativas de proteção.

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