Justiça Federal de Campinas envia ao STJ investigação sobre contrabando de mercúrio ligada a ex-governador de Mato Grosso
A Justiça Federal de Campinas, em São Paulo, encaminhou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma investigação que apura o contrabando de mais de 300 quilos de mercúrio em um garimpo no Mato Grosso. O Ministério Público Federal (MPF) encontrou indícios de que o local pertencia ao então governador Mauro Mendes, que hoje é candidato ao Senado.
O caso ganhou contornos mais complexos após o MPF solicitar o declínio da competência para o STJ em maio deste ano. A procuradoria argumentou que o pedido se deu devido ao envolvimento de uma autoridade que possuía foro privilegiado perante o STJ à época dos fatos, que seria Mauro Mendes, então governador do estado.
A investigação aponta que, entre 2022 e 2023, as empresas Mineração Aricá e Kin Mineração adquiriram cerca de 314 kg de mercúrio sem a devida autorização do Ibama. Essa aquisição ilegal caracteriza o crime de contrabando, e o mercúrio era utilizado na produção de ouro, representando um sério risco à saúde humana e ao meio ambiente.
Operação Hermes HG desvenda esquema de contrabando
O contrabando de mercúrio foi investigado pela Operação Hermes HG, que teve duas fases de deflagração em dezembro de 2022 e novembro de 2023. A partir dessa operação, o MPF apresentou uma denúncia à Justiça Federal de Campinas, que tornou 14 pessoas rés. Agora, a competência para investigar Mauro Mendes foi enviada ao STJ, devido ao foro privilegiado que ele detinha como governador.
Segundo o MPF, as mineradoras Kin e Aricá pertencem ao mesmo grupo empresarial e compravam mercúrio de Arnoldo Veggi. Veggi já respondia por crimes ambientais e agora também é acusado de formação de organização criminosa e contrabando.
Diálogos revelam negociação e destino do mercúrio
Conversas de WhatsApp anexadas à denúncia detalham a intermediação da compra de mercúrio por Rafael Pequi. Nas notas fiscais, o produto era disfarçado como “bola de ferro”. Em um dos diálogos, Pequi pergunta a Arnoldo Veggi o custo para emitir nota fiscal falsa, apenas para fins de fiscalização, para “o cara da Aricá”.
Em outra conversa, Arnoldo informa a seu tio e sócio, Alberto Veggi, que emitiu nota fiscal de “bola” para a Aricá. Ao ser questionado sobre quem seria a Aricá, respondeu: “Garimpo do Mauro Mendes”.
O nome do ex-governador surge novamente em um diálogo entre Arnoldo e Rafael Pequi: “Aí ó Dodo, é pra emitir nessa daí, cara. Você pode colocar bola nesse negócio aí e aí ele vai ficar com uma fechada. Tá porra! É do Mauro, cara! Ele é amigo do meu pai, cara.”
Filho e esposa de Mauro Mendes também tiveram participação na Aricá
Um funcionário da Aricá, Bruno Kenzo Deitos, relatou em depoimento que tinha a impressão de que Luis Antônio Taveira Mendes, filho do ex-governador, era o dono da linha de mineração. Ele também mencionou que Mauro Mendes acompanhava Luis Antônio em visitas ao garimpo.
A Mineração Aricá teve como sócia, entre 2011 e 2020, a empresa Maney Participações, de Mauro Mendes. Virgínia Mendes, esposa do ex-governador, e o filho Luis Antônio também figuraram como sócios da Aricá.
O MPF destacou que “há, portanto, indicativos importantes de que a Mineração Aricá é uma empresa que pertence também a Mauro Mendes, pessoa que detinha, na época dos fatos, a função de governador, e concomitantemente visitava o garimpo referido, demonstrando possível cometimento dos delitos no exercício do cargo eletivo”.
Mauro Mendes se defende e critica timing da investigação
Procurado, Mauro Mendes, que concorre ao Senado, classificou a investigação como “absurdo” e “armação”. Ele afirmou que a empresa de seu filho foi sócia minoritária até 2024 e criticou o momento da divulgação, a 45 dias da eleição. “Essa operação Hermes tem três anos e agora vem com essa história”, declarou.
Sobre sua candidatura, Mendes reiterou que “armações não me tiram do propósito”. Ao ser questionado sobre visitas à mineradora, respondeu que visitou “centenas de empresas como governador” e que isso não o tornaria responsável por eventuais investigações. Segundo ele, foi sócio da mineradora “há quase dez anos atrás”.
Mauro Mendes foi alvo de uma operação da Polícia Federal na semana passada, sob acusação de se beneficiar de um esquema que desviou verbas estaduais para empresas dele e de Fábio Garcia, deputado federal e ex-chefe da Casa Civil. A PF alega que o governo estadual desistiu de uma ação judicial contra a Oi e firmou acordo com um advogado que havia comprado a dívida, com posterior direcionamento do dinheiro para fundos ligados aos políticos.














