A enchente em Santa Cruz voltou a causar transtornos no Lote 2, na Zona Oeste do Rio, após a forte chuva que começou na noite de quinta-feira (26). Na manhã desta sexta (27), moradores encontraram casas alagadas, móveis danificados e o mesmo sentimento de abandono que, segundo eles, se repete a cada temporal.
Relatos apontam que o nível da água chegou a cerca de 30 centímetros dentro de algumas residências. O transbordamento do Rio Cação Vermelho é apontado como um dos principais fatores para os alagamentos, além da ausência de dragagem e da precariedade no sistema de escoamento.
“Lote 2 está abandonado. Moro aqui há 50 anos, e nada mudou. Daquela esquina para lá, não tem uma boca de lobo, não tem nada. Quando chove demais, a água de lá só sai quando esvazia aqui. Se fosse feita limpeza aqui uma vez ao ano, já estaria bom demais”, lamentou o instrutor de trânsito Ricardo Santos.
O caminhoneiro Sanclair Duarte contou que chegou do trabalho por volta das 2h30 e encontrou a casa já tomada pela água. “A água retornou pelo sanitário e foi se espalhando por banheiro, quarto, sala… Danificou o lavatório do banheiro, o rack da TV. Agora é trabalhar e entregar na mão de Deus”, afirmou.
Ele também criticou a estrutura antiga da rede de esgoto. “Moro aqui desde 1999, e esse esgoto é muito precário. Na época foi feita uma coisa básica, porque tinha pouca população. Com o passar do tempo, essa população foi aumentando, mas a rede não foi substituída por uma mais apropriada”, disse.
A moradora Maria Clara relatou prejuízos maiores. “Alagou tudo, perdi minha geladeira, as roupas das minhas filhas. Meu cachorro está em cima da minha cama porque está tudo cheio de água. Estou desesperada”, desabafou.
Já Hilda Couto, de 73 anos, descreveu o susto vivido durante a madrugada. “Minha casa ficou toda alagada. Acordei no meio da água. Perdi as compras e até meus dentes. Quase que morro afogada”, contou. Ela ainda relatou que encontrou uma cobra no quintal levada pela correnteza.
Além dos prejuízos materiais, moradores demonstram preocupação com doenças e riscos elétricos. “Não entrei em casa por medo de tomar choque, porque a energia estava em contato com a água”, explicou Sanclair. Outro temor recorrente é o surgimento de animais peçonhentos e a contaminação provocada pelo rio.
A Prefeitura do Rio foi procurada para comentar as reclamações e informar se há previsão de obras estruturais na região, mas ainda não houve retorno até a publicação desta reportagem.
Enquanto limpam a lama e tentam salvar o que restou, moradores do Lote 2 já convivem com uma pergunta angustiante: quando virá a próxima chuva forte?














