Um dia para ficar na história do Botafogo de Futebol e Regatas. Assim foi a tarde dessa segunda-feira (26) quando aconteceu a inauguração da sala da presidência do clube que, a partir de agora se chamará Sala de Reunião Embaixador Escolhido Paulo Cézar Lima. O evento aconteceu em General Severiano, sede alvinegra, em Botafogo, Zona Sul do Rio, e contou com a presença de beneméritos do clube, amigos e familiares do ídolo alvinegro.
“É raro no Brasil alguém receber algum tipo de homenagem. Principalmente as gerações de 58, 62 e 70. Nós, tricampeões do mundo, nunca fomos homenageados, o que é um absurdo para quem ajudou a colocar o futebol brasileiro no topo. Nos clubes em que joguei, nenhum deles me homenageou. Até que, na semana passada, João Paulo Magalhães, presidente eleito no Botafogo em janeiro deste ano, me prestou essa homenagem que é dar o meu nome à sala da presidência do clube. Me surpreendi e confesso que estou muito emocionado”, contou Paulo Cesar Caju que, ao lado de Jairzinho e Túlio, se tornou embaixador oficial do Botafogo.
Alberto Ahmed, que esteve presente à inauguração e relembrou da amizade com PC Caju desde a infância quando se enfrentaram no futebol de salão, fez questão de falar do amigo.
“Eu e PC somos amigos desde 1962, quando eu era camisa 10 do Raio de Sol, um dos maiores times amadores do Rio, e ele já um craque no futebol de salão do Flamengo. A nossa amizade se perpetuou no tempo e na década de 1990, eu e ele nos reencontramos e o convidei para ser colunista no POVO. A homenagem ao meu amigo vem em uma boa hora, já que Paulo Cézar Caju é um dos maiores ídolos da história do Botafogo”, afirmou o empresário.
E brincou: “Convidei PC para assistir à final do Carioca Sub-20, entre Botafogo e Vasco, no Engenhão, partida que meu neto Diego Ahmed vai começar no banco. Nesse quesito, o Botafogo leva vantagem, já que o garoto puxou o talento do avô que, como jogador amador e camisa 10 de todos os times do Rio, nunca ficou no banco”, provocou.
O evento contou com a presença de familiares, beneméritos do clube e amigos de Paulo Cézar Caju como Pedro Guimarães, presidente da Apresenta Rio; o cantor Vinícius Cantuária; Zé Renato, músico do Boca Livre; Dadi Carvalho, ex-baixista do A Cor do Som; Victor Biglione, compositor argentino radicado no Brasil; e o grupo Pão de Açúcar.
Quem é Paulo Cesar Caju?
Ícone do movimento Black Power no futebol brasileiro, Paulo Cézar Lima ou Caju, como ficou conhecido ao longo da carreira, nasceu em 16 de junho de 1949 no Rio de Janeiro.
Revelado pelo Botafogo, PC Caju soube conquistar seu espaço sempre com posicionamentos firmes, atitudes irreverentes e bom futebol.
Com a autoridade de quem simbolizou o futebol habilidoso e provocador, PC Caju quebrou as correntes da pobreza que aprisionavam seus desejos e seu talento, e liberto, deixou de ser escravo do próprio sonho que um dia tornaria-se realidade: ser jogador de futebol!
Preso ao Glorioso, que tem como escudo uma Estrela Solitária, reluzente em seu peito em tantas e tantas partidas, PC Caju encobre seu coração alvinegro nas doces lembranças que vai contando por aí. Atuou pelo clube desde o fim dos anos 1960 ao início dos anos 1970. Em 1967, aos 18 anos, Paulo Cézar tornou-se jogador do time principal do Botafogo.
O apelido Caju, que tornou-se sobrenome, surgiu quando pintou o cabelo de vermelho ao retornar dos Estados Unidos. A pintura foi a forma de demonstrar o apoio ao movimento dos panteras negras, com o qual o jogador identificava-se politicamente.
Versátil, saía-se bem no meio e na ponta. Jogou na seleção do Tri, no melhor Botafogo de todos os tempos, foi peça luxuosa na engrenagem da ‘Máquina Tricolor’ e bicampeão pelo Flamengo.
“No Vasco, fui vice”, contou ao POVO.
Mas nada foi fácil para o jovem de sorriso ingênuo até alcançar o estrelato. Meia-armador de estilo elegante e ponta-esquerda driblador, na infância, ia para General Severiano admirar seus ídolos.
Adolescente, já treinando entre eles, encantou nada mais, nada menos do que Gérson, o Canhotinha de Ouro, que convenceu o treinador Admildo Chirol a selecioná-lo entre os profissionais para uma excursão que o Botafogo faria a Europa. Saiu-se bem, diga-se de passagem.
Na volta, estreou no Maracanã com três gols na vitória por 3 a 2 contra o América, no Maracanã, na decisão da Taça Guanabara de 1967. Ficou conhecido nacionalmente como jogador do Botafogo, sendo várias vezes campeão e inclusive da Taça Brasil de 1968.
Na Copa do Mundo do México, em 1970, no auge de sua forma física e técnica, entrou no lugar de Gérson, contundido – o mesmo Gérson que apostou todas as suas fichas no garoto – em duas ocasiões: contra a Romênia e Inglaterra, partida em que fez sua melhor exibição. O Brasil venceu por 1 a 0, gol de Jairzinho e Zagallo ainda ouviu do perplexo Alf Ramsey, treinador inglês: “How is such a player a reserve on your team? (Como um jogador desse é reserva em seu time?). O Velho Lobo engoliu a seco e uivou em silêncio.
Nascido e criado no Morro dos Tabajaras em Botafogo, PC Caju conheceu países na palma das mãos, ou melhor, na sola dos pés.
Sem condições financeiras de comprar uma bola de futebol, torcia para que as meias-calças de dona Esmeralda, sua mãe, rasgassem para serem jogadas fora. E do lixo, nasceu um sonho. As meias eram recheadas com jornal e transformavam-se em bolas. Ali, naquele momento, nascia um gênio.
Gênio que continuou encantando gerações de alvinegros, rubro-negros, tricolores e vascaínos que tiveram a chance de vê-lo desfilando talento pelos gramados de todo Brasil.
PC Caju jogou ainda no Flamengo, Fluminense, Vasco, Olympique de Marseille-FRA e Grêmio, antes de se aposentar do futebol.
Em 2016, o presidente da França, François Hollande, entregou-lhe, no Rio de Janeiro a medalha da Legion d’Honneur, honraria que nenhum outro jogador conseguiu.














