PDT-SP em crise: Candidatos denunciam “esmola” e “chacota” na distribuição do Fundo Eleitoral
A divisão dos recursos do Fundo Eleitoral gerou uma profunda crise interna no diretório do PDT em São Paulo. Candidatos a deputado federal pelo estado relatam insatisfação com o partido, citando o descumprimento de promessas e a falta de apoio efetivo em suas campanhas.
As queixas, registradas em um grupo de WhatsApp com o nome “Deputados Federais PDT São Paulo”, obtidas pelo portal Metrópoles, descrevem a situação como “chacota”, “constrangimento”, “injustiça” e “vergonha”. Um dos desabafos mais contundentes definiu a verba destinada pela sigla como “esmola”, evidenciando o alto grau de descontentamento.
As denúncias surgem em meio à distribuição nacional de R$ 169,3 milhões do Fundo Eleitoral pelo PDT. Enquanto alguns postulantes em São Paulo receberam valores na casa das centenas de milhares de reais, outros viram suas campanhas minguarem com quantias irrisórias, como R$ 10 mil, ou até mesmo nada, contrariando o combinado.
Promessas descumpridas e “esmola” de campanha
A disparidade nos repasses é um dos principais focos da revolta. “Candidatos pegaram R$ 400 mil e outro pega R$ 10 mil, R$ 15 mil. Gente, o estadual pegou R$ 2.6 mil, aí também é brincadeira, não dá nem para pagar o advogado”, reclamou um dos integrantes do grupo. A falta de material de divulgação, como panfletos e bandeiras, agrava o cenário de desamparo.
Diante da situação, alguns candidatos já cogitam retirar suas candidaturas. “Vontade é sair, abandonar o partido e tomar outras providências. Como que a gente vai ficar nessa situação? Continuar com essa palhaçada que tá? Porque tá uma palhaçada isso pra mim. Chega, já deu. Todo mundo aí fazendo suas campanhas, a gente parado. E a gente sem material, sem nada, sem dinheiro, recursos, sem fundo partidário, sem nada, sem material”, desabafou um dos postulantes.
A crítica se estende à gestão dos recursos, com alegações de que o PDT-SP estaria privilegiando candidatos com maior relevância nas redes sociais, como “youtubers” e “influencers”, em detrimento de outros que se sentem igualmente qualificados, mas recebem quantias significativamente menores. “Eu não me sinto diferente, nem pior do que eles, para receber só 10 mil reais”, pontuou uma mensagem.
Desorganização e falta de liderança partidária
A percepção de desorganização é generalizada. “O partido quer ultrapassar a cláusula de barreira, quer ganhar, quer continuar, porque existe uma necessidade do partido de continuar, mas desse jeito, cara, com essa desorganização, isso aqui virou um quiosque, não faz sentido nenhum”, criticou outro candidato. Há relatos de que o partido teria sugerido aos candidatos que buscassem apoio financeiro de amigos, diante da escassez de recursos oficiais.
As conversas também evidenciam a ausência de apoio de lideranças importantes, como Antônio Neto, presidente do diretório municipal em São Paulo, e Carlos Lupi, presidente nacional. Uma viagem a Brasília, onde teria sido prometida ajuda financeira a todos os candidatos a deputado federal, é citada como um momento de frustração. “Estivemos em Brasília, viajamos a noite toda, de ônibus, passando frio, fome, dificuldade, e o próprio Lupi falou na reunião que iria liberar verba para os candidatos. Só que é o seguinte, vocês estão esquecendo que São Paulo é a maior cidade do Brasil, como é que um candidato faz uma campanha para ganhar com R$ 10 mil, com R$ 2 milhões já não ganha”, detalhou um dos participantes.
Acusações de fraude e discriminação também vieram à tona. Uma candidata denunciou que pessoas brancas estariam se passando por pardas para receberem fundos maiores, enquanto mulheres pretas, que completaram a chapa, receberam quantias inferiores. “Nós, mulheres pretas, completando a chapa, que nos chamaram pra ajudar, fizemos tudo certinho, e vendo mulheres brancas ganhando mais do que nós. Está tudo desorganizado”, indignou-se.
O que diz o PDT e o Fundo Eleitoral
Procurado, o Diretório Estadual do PDT em São Paulo não se pronunciou até a publicação da reportagem, mas o espaço segue aberto para manifestações. Em contrapartida, Ewerton Roberto Carreirinha, secretário adjunto geral estadual do PDT, afirmou que “nenhuma promessa foi feita a ninguém” e que os recursos são geridos com responsabilidade, considerando as demandas nacionais e estaduais. Ele pediu desculpas pelos transtornos e reafirmou o compromisso com o partido, mas alertou que “a falta de respeito para com a direção não será tolerada”.
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o Fundo Eleitoral, foi criado em 2017 e é destinado ao financiamento de campanhas eleitorais após a proibição de doações empresariais. Em 2022, a União disponibilizou R$ 4,9 bilhões para a Justiça Eleitoral. A distribuição entre os partidos obedece a critérios como votos em eleições anteriores e número de representantes na Câmara e no Senado. O Partido Liberal (PL) foi o que mais recebeu, com R$ 881,7 milhões, seguido pelo PT (R$ 615,4 milhões) e União Brasil (R$ 526,2 milhões).














