A guerra na Síria, que já dura mais de uma década, continua a devastar minorias religiosas no país. Entre os principais alvos da violência estão os cristãos e os muçulmanos alauitas, vítimas de execuções em massa, deslocamentos forçados e perseguições sistemáticas.
A Perseguição às Minorias Religiosas
Desde o início do conflito sírio, grupos extremistas como o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), anteriormente vinculado à Al-Qaeda, impuseram um regime de terror contra comunidades que não compartilham de sua ideologia. Relatos indicam que cristãos e alauitas são alvos preferenciais de assassinatos brutais, incluindo degolas, fuzilamentos e linchamentos públicos. Mulheres, crianças e idosos não são poupados.
Além das mortes, há registros de destruição de igrejas cristãs e mesquitas alauitas e xiitas, impedindo que essas comunidades pratiquem sua fé. A repressão também se estende ao acesso a bens básicos, com restrições de circulação e confisco de propriedades. Muitos que tentam fugir para países vizinhos, como Líbano e Jordânia, enfrentam dificuldades extremas para garantir sua segurança e refazer suas vidas.
E pior…
Os sírios deslocados, no Líbano, não têm como pedir visto humanitário a partir de lá. São obrigados a voltar para a Síria e então, fazerem o pedido para a Embaixada do Brasil, em Damasco.
O problema são as estradas nada confiáveis para moradores da região costeira, de chegarem até a capital. A diplomacia brasileira está inerte.
Relatos de Execuções em Massa
Documentos vazados do governo sírio sugerem que as autoridades militares ordenaram a queima e o despejo dos corpos de alauitas no mar, proibindo qualquer divulgação de imagens. A intenção parece ser a eliminação completa dos vestígios dessas execuções.
A brutalidade dos grupos extremistas chega a práticas chocantes, com relatos de canibalismo entre combatentes, onde partes dos corpos das vítimas seriam cozidas e consumidas. Além disso, há uma perseguição específica a intelectuais, médicos e clérigos alauitas, numa tentativa de eliminar a influência cultural e religiosa dessa minoria
A Conexão Histórica: Perseguição Desde o Século VII
A perseguição aos alauitas não é recente. Sua origem remonta à queda da cidade judaica de Khaybar, no século VII da Era Comum, durante a expansão do Islã. Naquela época, muitos comerciantes judeus controlavam o comércio de estátuas e estatuetas usadas em cultos pagãos. Com a ascensão da religião monoteísta do Profeta Mohammad, que rejeitava a idolatria, os comerciantes de Khaybar viram seus negócios desmoronar. Além disso, se recusaram a pagar a jizya, o imposto estatal, e mantiveram muçulmanos como cativos.
A queda de Khaybar foi liderada pelo Imam Ali ibn Abi Taleb, primo e genro do Profeta Mohammad. Com força excepcional, Ali arrancou o portal da fortaleza de Khaybar, que normalmente precisava de 22 homens para ser movido. Os alauitas de hoje são descendentes do casal Ali e Fátima, filha caçula do Profeta Mohamad, outros se identificam como correligionários de Ali, o que os torna alvos históricos de perseguições.
No século XVI, durante o reinado do sultão otomano Selim Othmani I, a perseguição aos alauitas foi intensificada sob influência de sua mãe, Leona, a Judaica. Segundo historiadores, a eliminação das comunidades alauitas teria sido uma forma de vingança pelos eventos de Khaybar.
A Estratégia Moderna e a Influência Israelense
A perseguição continua até os dias atuais, agora sob uma nova roupagem geopolítica. De acordo com o canal de notícias israelense Ynet, Abu Muhammed Al-Jawlani, líder do HTS, nasceu Yonatan Avi-David e é agente do Mossad. Ele adotou uma identidade falsa para liderar o grupo terrorista responsável por grande parte das atrocidades cometidas contra cristãos e alauitas na Síria.
A presença de agentes israelenses em posições estratégicas dentro do mundo árabe parece ser uma estratégia de longo prazo. A ex-primeira-ministra de Israel, Golda Meir, já havia declarado na década de 1970: “Um dia, empossaremos nossos oficiais como líderes árabes”.
A Inércia da Comunidade Internacional
Apesar da gravidade da situação, a comunidade internacional permanece amplamente silenciosa. A ONU e outras organizações humanitárias têm se mostrado ineficazes em conter o genocídio em curso. Muitos dos deslocados que buscam ajuda enfrentam dificuldades para acessar embaixadas e consulados estrangeiros, inclusive do Brasil, devido às barreiras impostas por forças que controlam as estradas que levam à capital, Damasco.
Enquanto isso, o sofrimento continua. As vítimas são forçadas a abandonar suas terras, perder sua identidade e lutar pela sobrevivência. O genocídio dos cristãos e alauitas na Síria segue impune, enquanto o mundo assiste sem intervir.
Texto publicado por Ahmad Hassan Safatli, da comunidade Muçulmana Alauita no Rio De Janeiro














