Ex-presidente do INSS usava código “forno” para acobertar propina de R$ 250 mil mensais em esquema com pizzaria, diz PF

Alessandro Antônio Stefanutto

Ex-presidente do INSS é acusado de usar termo “forno” para ocultar propinas milionárias em esquema envolvendo pizzaria e empresas de fachada.

A Polícia Federal (PF) indiciou o ex-presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Alessandro Antônio Stefanutto, por suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa. As investigações apontam que Stefanutto utilizava um código peculiar, a palavra “forno”, para se comunicar com operadores financeiros sobre a ocultação de propinas.

Esses pagamentos ilícitos, que teriam chegado a R$ 250 mil mensais após Stefanutto assumir a presidência do INSS, eram disfarçados através de empresas de fachada, incluindo uma pizzaria. A PF detalha que o uso do termo “forno” indicava o momento oportuno para “esquentar o dinheiro”, ou seja, para compensar cheques emitidos pela organização criminosa sem levantar suspeitas.

A defesa de Stefanutto, contudo, declarou ao Estadão que ainda não teve acesso ao relatório de indiciamento e que o espaço está aberto para manifestação. A Operação Sem Desconto, que desvendou o esquema, aponta para uma forte ligação entre Stefanutto, apelidado de “italiano”, e os operadores financeiros da fraude.

Relação próxima e códigos para disfarçar dinheiro

Segundo a PF, Stefanutto mantinha uma relação de proximidade com Cícero Marcelino de Souza Santos, um dos principais operadores financeiros do esquema. Mensagens trocadas entre eles revelam o uso de apelidos carinhosos, como “grande amigo” e “irmão”, e demonstram a coordenação para a lavagem de dinheiro.

Em uma conversa datada de 4 de outubro de 2022, Stefanutto enviou a mensagem: “Quando puder usar o forno me avisa”. Para os investigadores, isso significava que era hora de processar os cheques da organização criminosa de forma discreta. A PF ressalta que os encontros presenciais e as mensagens reforçam os indícios de recebimento de propina e lavagem de dinheiro.

“Reaquecer a pizza” e a confusão com cheques

O código “forno” foi associado pela PF à empresa de fachada To Hire Car Locadora. Em 10 de outubro de 2022, Cícero questionou Stefanutto sobre o nome da empresa do “forno” para organizar o envio de valores. Stefanutto respondeu: “Forno é para locadora”, indicando a To Hire Car.

Dias depois, Cícero expressou frustração: “colocaram no forno antes do tempo”. A PF interpretou essa fala como um indicativo de que dois cheques foram entregues a Stefanutto, mas apenas um deveria ter sido compensado naquele momento, gerando um mal-entendido que foi resolvido posteriormente.

Resolução do “mal-entendido” e valores milionários

Em 7 de novembro de 2022, Cícero avisou Stefanutto que ele “já pode colocar no forno”. A resposta do ex-presidente do INSS foi: “Então reaquecer a pizza, certo?”, seguida pelo número “250”. A PF entende que essa conversa se refere à compensação de dois cheques de R$ 250 mil cada, recebidos por Stefanutto.

Um desses cheques teria sido repassado a Anderson Pomini, um dos “laranjas” do esquema, e o outro ao escritório Sanchez Salvadore Sociedade de Advogados. Ambos os cheques foram emitidos pela empresa de fachada To Hire Car Locadora, conforme investigação da PF.

Stefanutto como peça central e a Conafer

O relatório de indiciamento da PF aponta Alessandro Stefanutto como uma figura central na organização criminosa. Ele é suspeito de ter utilizado suas posições como procurador-geral e presidente do INSS para beneficiar a Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer).

As investigações indicam que os pagamentos de propina eram ocultados por meio de empresas como Stelo Advogados e Delícia Italiana Pizzas. Após assumir a presidência do INSS, Stefanutto teria passado a receber cerca de R$ 250 mil por mês em propina, recursos que, segundo a PF, “proviam diretamente do escoamento da fraude em massa da Conafer”.

A PF destaca que “essa valorização da propina leva ao entendimento de que os valores eram diretamente proporcionais ao poder hierárquico do agente em blindar o esquema de descontos indevidos”, sugerindo que o montante recebido era uma recompensa pela capacidade de Stefanutto em proteger a fraude.

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