Pesquisas recentes revelaram que o ser humano já preservava corpos de forma ritualística muito antes das famosas múmias do Egito Antigo. Um estudo arqueológico analisou dezenas de sepulturas milenares encontradas em China, Filipinas, Laos, Tailândia, Malásia e Indonésia, comprovando que comunidades pré-históricas do Sudeste Asiático praticavam a conservação dos mortos por defumação, um método que antecede em milênios as técnicas egípcias e chilenas.
De acordo com o levantamento, os esqueletos, encontrados em posição fetal bastante fechada, apresentavam vestígios de aquecimento suave e depósitos de fuligem, evidenciando que os corpos haviam sido expostos à fumaça de fogueiras por longos períodos antes do sepultamento. O processo teria tanto funções espirituais quanto de preservação.
“Este processo tinha sem dúvida um valor ritual e simbólico, tanto quanto uma função de preservação. O fumo permitia que os falecidos permanecessem visíveis entre os vivos, materializando os laços sociais e espirituais dentro das comunidades. Nos climas quentes e úmidos do Sudeste Asiático, a defumação retardava eficazmente a decomposição, mas apenas por algumas décadas ou séculos, ao contrário das múmias egípcias concebidas para durar milênios”, explica o professor Para Hsiao-chun Hung, responsável pelo estudo.
Além de revelar uma prática funerária ancestral, o estudo reforça o modelo conhecido como “migração em duas camadas” no Sudeste Asiático — teoria segundo a qual a região teria sido povoada inicialmente há cerca de 65 mil anos por caçadores-coletores, e posteriormente, há 4 mil anos, por agricultores neolíticos que trouxeram novas tecnologias e tradições culturais.
As práticas de mumificação por defumação surgem, portanto, como marcadores culturais preciosos para compreender a evolução dessas sociedades. “Estes resultados se integram nos modelos atuais de migração humana antiga e sugerem que a mumificação por defumação é muito mais antiga e difundida do que se pensava, talvez tendo surgido logo nas primeiras expansões do Homo sapiens fora da África, há cerca de 42 mil anos”, acrescenta a antropóloga Ivy Hui-Yuan Yeh, coautora da pesquisa.
O achado amplia a compreensão sobre os ritos de morte e espiritualidade humana e revela que o impulso de preservar a memória dos mortos é tão antigo quanto o próprio Homo sapiens.














