As estátuas mutiladas no Rio de Janeiro se tornaram um triste retrato do abandono das praças e monumentos históricos da cidade. Um exemplo simbólico desse cenário é a escultura de Mahatma Gandhi, localizada no Centro, ao lado da Cinelândia, que perdeu parte do cajado em 2023. Desde então, o objeto jamais foi reposto, e a imagem do líder pacifista passou a lembrar um gesto de agressividade — justamente o oposto de tudo o que ele representa.
“Passei aqui outro dia com meu filho e ele perguntou por que o Gandhi tava segurando um pedaço de pau. Na hora, nem soube o que dizer. É triste ver um lugar com tanto simbolismo entregue ao abandono assim”, lamentou a professora Luciana Alves, de 42 anos, que atravessa diariamente a Praça Mahatma Gandhi a caminho do trabalho.
Segundo dados do grupo SOS Patrimônio, formado por historiadores, arquitetos e restauradores, cerca de 90% dos 1.400 monumentos públicos da cidade já sofreram algum tipo de depredação. Entre os danos mais comuns estão o roubo de partes metálicas como dedos, mãos, placas, grades e espadas, frequentemente levadas para o comércio informal de sucata.
“O problema é o ferro-velho”, afirma Marconi Andrade, restaurador e fundador do SOS Patrimônio. “Os criminosos furtam fragmentos com valor histórico incalculável, mas que viram apenas metal fundido. Não vai para antiquário nenhum.”
A Praça Mahatma Gandhi é um retrato completo dessa deterioração. O Chafariz Monumental do Jardim do Monroe, tombado pelo Iphan, está desfigurado: seus anjos perderam asas e membros, a fonte secou em 2017 e o local é usado como banheiro público. Durante a visita da reportagem, frequentadores advertiram sobre o risco de circular com câmeras mesmo de dia, apesar da presença de agentes do programa Segurança Presente.
Entre 2019 e 2025, segundo Marconi, apenas seis monumentos foram restaurados — e todos com reparos considerados incompletos. “Eles restauram sem repor os elementos originais. Fica uma peça descaracterizada, às vezes até mais triste do que quando estava danificada.”
A Secretaria Municipal de Conservação informou que destinou R$ 800 mil em 2023 para recuperar monumentos vandalizados, e que sete novos casos já foram registrados em 2025. A Polícia Militar declarou que o 5º BPM atua nas regiões afetadas, mas destaca que muitos crimes são cometidos por pessoas em situação de vulnerabilidade social e com alto índice de reincidência.
Na região central, bustos inteiros desapareceram do Campo de Santana e do Passeio Público. Ponteiras metálicas de grades somem semanalmente. No Campo de São Cristóvão, blocos centenários de ferro fundido estão sendo furtados um a um. “É um absurdo, porque o valor comercial é baixíssimo”, completa Marconi.
Nem locais turísticos escapam. Em Copacabana, os óculos da estátua de Carlos Drummond de Andrade foram furtados mais de dez vezes. Já o monumento ao General Osório, na Praça XV, teve toda a cerca de bronze, com duas toneladas, roubada em 2023 — e nunca reposta. A espada, as placas e até os postes de iluminação ao redor também desapareceram.
“Foi o primeiro monumento instalado após a proclamação da República. Está exatamente de frente para a janela onde dom Pedro I proclamou o Dia do Fico, com a espada apontada para o lado oposto. Representa a ruptura entre o Império e a República”, lembra Marconi.
Um dos episódios mais simbólicos foi o furto, em 2020, da estátua de Rosa Paulina da Fonseca, mãe do Marechal Deodoro. A escultura de 400 kg foi levada inteira e jamais localizada.
A historiadora Sheila Castello alerta que mais grave do que o impacto visual é o risco de apagamento da memória coletiva. “Sem referência ao passado, perdemos a capacidade de compreender o presente. Cada monumento destruído é uma história que se desfaz em silêncio.” Ela também critica ações que, sob o pretexto de revisão histórica, incentivam o desaparecimento de registros importantes. “Apagar a memória é um risco enorme. Se você não mostra os registros do passado, perde a chance de compreender os mecanismos que levaram aos crimes de antes.”














