Douver Braga: brasileiro que aplicou golpe bilionário no exterior lava dinheiro no Brasil, diz PF

Douver Braga

Salvador, Bahia, 21 de novembro de 2015. Um homem de smoking apresenta o palestrante que viria a seguir e o define como “um brasileiro bem-sucedido que vive nos Estados Unidos”. Em meio a aplausos, o empresário Douver Braga tomou conta do palco e da atenção da plateia logo nas primeiras palavras. Dono de uma voz grave e um gestual assertivo, vestia um terno cinza justo, por cima de uma camisa e gravata rosa claro e um par de meias na mesma cor. Autointitulando-se um dream builder (construtor de sonhos), ele enumerou os quatro princípios para o sucesso: “oportunidade, time, objetivo e sonho”.

De acordo com a matéria do Jornal extra escrita por Henrique Barbi e Vera Araújo, além de vangloriar-se de “nunca ter tido patrão”, Douver estava prestes a lançar o empreendimento que o levaria ao auge — e à queda. Meses depois daquele evento, fundou nos EUA o Trade Coin Club (TCC), que prometia altos lucros a investidores a partir de transações com criptomoedas.

Golpe bilionário com criptomoedas

A propaganda, difundida ao redor do mundo com o carisma de um animador de auditório e a empolgação de um missionário, fez mais de 100 mil pessoas aplicarem 82 mil bitcoins, avaliados na época em US$ 295 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão). Mas, segundo as investigações, tudo não passava de um clássico esquema de pirâmide.

Em 2018, o TCC colapsou. Investidores começaram a perceber que não conseguiam mais retirar seu dinheiro, e Douver Braga simplesmente desapareceu dos Estados Unidos, retornando ao Brasil — não sem antes transferir pelo menos 8.396 bitcoins, no valor de US$ 55 milhões (R$ 264,5 milhões), segundo a Comissão de Valores Mobiliários americana (SEC).

Ascensão e ostentação

Natural de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, Douver Braga sempre cultivou paixão por carros e luxo. Começou vendendo equipamentos de som automotivo nos anos 2000. Quando se mudou para os EUA, encontrou no mercado de carros de luxo e depois nas criptomoedas o caminho para multiplicar sua fortuna — mesmo que de forma ilegal.

Nos tempos áureos, em conferências internacionais, Douver prometia que seu robô fazia “milhões de microtransações com bitcoin a cada segundo”, garantindo retorno diário de 0,35%. Na prática, os lucros dos investidores vinham exclusivamente de depósitos de novos participantes — um típico esquema Ponzi.

Lavagem de dinheiro no Brasil

Após fugir dos EUA, Douver Braga passou a investir pesadamente no Brasil, comprando mais de 130 imóveis, além de carros de luxo, uma embarcação e uma coleção de relógios de alto valor. Também buscou construir uma imagem de filantropo, fundando a ONG Click4HelpKids e divulgando ações sociais nas redes sociais.

Um dos seus principais negócios foi a sociedade no Feirão de Caxias, na Baixada Fluminense, com José Carlos de Freitas Eloy (Cacalo), também alvo das investigações.

Ação da Polícia Federal

Há um mês, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fantasos, com o objetivo de seguir o rastro do dinheiro ilícito. A Justiça brasileira determinou o bloqueio de R$ 1,6 bilhão em bens, entre imóveis, carros, embarcações e contas bancárias vinculadas a Douver e seus associados.

A PF afirma que Douver comandava uma organização criminosa voltada para lavagem de dinheiro, utilizando empresas, imóveis e laranjas para ocultar os valores provenientes do golpe internacional.

Defesa

O escritório de advocacia que representa Douver Braga afirma que ele é um visionário e que a acusação nos Estados Unidos estaria “repleta de erros”, além de alegar perseguição xenofóbica. A defesa, no entanto, não se manifestou sobre as acusações no Brasil e nem sobre a sociedade com Eloy.

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