Notas em espécie com dinheiro sujo, cobertas por mofo e poeira, levantaram suspeitas da Polícia Civil durante as investigações que miram uma quadrilha responsável pelo fornecimento de armas ao Comando Vermelho no Rio de Janeiro. Segundo os agentes, as cédulas apresentadas em depósitos bancários tinham aspecto tão deteriorado que chegaram a ser rejeitadas pelas máquinas de contagem, indicando que o dinheiro pode ter sido enterrado — uma tática comum entre facções criminosas para ocultar lucros ilícitos.
A investigação faz parte da Operação Contenção, conduzida pela Polícia Civil em conjunto com o Ministério Público do Rio de Janeiro. Um dos alvos centrais é o empresário Jhonnatha Schimitd Yanowich, preso em São Paulo. Ele era dono de uma casa em condomínio de luxo na Barra da Tijuca, onde foram cumpridos mandados de busca.
De acordo com os relatórios bancários, movimentações suspeitas foram detectadas em contas ligadas a Yanowich, incluindo saques de R$ 1 milhão realizados três vezes em apenas três meses. Para justificar os valores, o empresário alegou que o dinheiro seria usado na compra de obras de arte com Brunno Nogueira Alcaide, apontado como seu laranja pelos investigadores. A justificativa levantou desconfiança devido à ausência de capacidade financeira de Brunno para transações desse porte.
Brunno também teria realizado dois depósitos, totalizando R$ 140 mil, em contas vinculadas ao empresário Eduardo Bazzana. Além disso, aparece como envolvido em compras de imóveis que, posteriormente, foram repassados por valores menores a filhos menores de Yanowich — o que reforça as suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Outro personagem central é Luiz Carlos Bandera Rodrigues, conhecido como Da Roça ou Zeus, que operava a partir de Rondônia, mas ganhou influência na Zona Oeste do Rio, especialmente na Muzema. A partir de mensagens trocadas por ele, a polícia chegou até Bazzana, empresário e presidente de um clube de tiro em Americana, na Grande Campinas. Ele também é dono de duas empresas de comércio de artigos esportivos, entre eles armas e munições.
Bazzana foi preso na última terça-feira. Em documentos apreendidos, ele aparece listado como “fornecedor” de itens como “pente AR10, pente AR15, munição AK47, munição 223 e munição 762”. Uma planilha mostra que ele teria recebido R$ 1,6 milhão em apenas 40 dias. Os depósitos eram feitos de forma fracionada via Pix, estratégia usada para despistar os órgãos de controle.
A defesa de Eduardo Bazzana se manifestou por meio de um áudio enviado via WhatsApp. “O senhor Eduardo Bazzana tem 68 anos de vida e nunca esteve envolvido com facção, seja ela qual for. É uma pessoa íntegra, honesta, que respeita os princípios da família, uma pessoa trabalhadora”, afirmou o advogado Rogério Duarte. Ele também declarou que “no final do processo vai ficar provada a inocência dele”.
A defesa ainda argumenta que a prisão preventiva foi ilegal, alegando que não há o cumprimento dos requisitos legais, e criticou o que chamou de onda para “criminalizar todos os empresários que de forma direta ou indireta trabalham com arma de fogo”.
As investigações seguem em curso, e a Polícia Civil tenta agora identificar outros envolvidos na rede de fornecimento de armamentos para o tráfico. A suspeita é que o grupo mantinha uma estrutura profissional de lavagem de dinheiro, com uso de imóveis, empresas de fachada e intermediários para movimentar grandes valores sem chamar atenção imediata das autoridades financeiras.
O caso chama atenção pela sofisticação das operações e pelo volume de recursos movimentados, mesmo com sinais visíveis de ocultação como o uso de cédulas danificadas. As autoridades ressaltam que a análise dos dados bancários, aliados aos documentos apreendidos, será essencial para ampliar o alcance da investigação e responsabilizar todos os envolvidos.














