Conceição Evaristo no Império Serrano vive momento histórico em ensaio ao posar com a fantasia que será usada pela tradicional ala das baianas no próximo carnaval. Homenageada pela escola de Madureira, a escritora teve a oportunidade de vestir, pela primeira vez, uma roupa de baiana durante um ensaio fotográfico realizado na quadra da agremiação, no Dia da Consciência Negra. O registro marca a divulgação oficial do figurino, que simboliza a ancestralidade presente no enredo “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”.
A autora pediu que o enredo criado por Renato Esteves fosse além de sua trajetória biográfica. Para ela, sua história se entrelaça com a de tantas outras mulheres negras, e por isso o carnavalesco se inspirou no conceito de “escrevivências”, termo usado pela própria Conceição para definir narrativas construídas a partir de experiências reais. A escola reforça que esse recorte amplia o sentido da homenagem e conecta a literatura da autora a um legado coletivo.
— Para mim, foi uma alegria muito grande, uma honra. Nunca vesti uma roupa de baiana, e (a primeira vez foi) justamente uma roupa de baiana no Império Serrano, uma escola de tradição, de raiz. E a ala das baianas é justamente uma das alas mais tradicionais da escola. O giro da baiana, de certa forma, segundo a professora Leda Martins, simboliza o tempo africano — disse Conceição em depoimento. — Foi uma experiência que, sem sombra de dúvidas, me traz toda uma memória ancestral.
Com tons de verde e dourado, a fantasia apresentada por Conceição é inspirada no figurino usado por Dona Ivone Lara no desfile de 1983, quando o Império levou à Sapucaí o enredo “Mãe Baiana Mãe”. As peças desse ano já foram encaminhadas ao ateliê, enquanto a roupa oficial que a escritora usará no carro abre-alas permanece guardada em segredo.
Outro destaque deste carnaval será a Unidos da Tijuca, que levará para a avenida o enredo em homenagem à escritora Maria Carolina de Jesus, autora de “Quarto de despejo”. Para Conceição, essa presença simultânea de escritoras negras como tema das escolas reforça a importância de democratizar o acesso à literatura. — A gente afirma de ter a literatura como direito de todos e democratiza essa ideia, de que todas as pessoas têm direito ao livro e à escrita — afirmou.
A autora também tem se mantido próxima da rotina imperiana. Participou de quatro das cinco fases da disputa de samba-enredo, acompanha o andamento no ateliê, marca presença nas feijoadas e até leu a sinopse para os compositores. Essa participação ativa fez crescer seu otimismo para o desfile da Série Ouro.
— Acho que a gente vai subir. Está uma alegria muito grande, um bom astral muito grande. Acho que essa positividade e essa alegria, sem sombra de dúvidas, vamos levar para o desfile — completou.














