A cantora Sônia Sayara presa por tráfico foi identificada pela Polícia Federal como uma das líderes de uma organização criminosa que atuava entre o Paraguai e o Brasil. Com 245 mil seguidores no Instagram e imagem de aspirante à estrela sertaneja, ela usava um nome falso. Seu verdadeiro nome, segundo as autoridades, é Nélida Sônia Sánchez Garcete.
De acordo com a segunda apuração na matéria de Eduardo Goulart e Aldo Benitez para o site da revista Piauí, Nélida é irmã de Carlos Rubén Sánchez Garcete, conhecido como “Chicharõ”, ex-suplente de deputado e narcotraficante paraguaio morto com dezenas de tiros em 2021. Após a morte do irmão, o marido dela, José Roberto de Oliveira Lima, conhecido como Tiquinho, teria assumido a liderança da quadrilha. Ele segue foragido.
A prisão de Nélida ocorreu durante a Operação Tango Down, deflagrada pela Polícia Federal. Além dela, outras cinco pessoas foram presas, e três continuam sendo procuradas. A quadrilha é acusada de transportar grandes cargas de maconha, cocaína e skunk utilizando rotas terrestres e aéreas. Desde 2019, as investigações resultaram na apreensão de mais de 27 toneladas de drogas e duas aeronaves.
O superintendente da Polícia Federal no Mato Grosso do Sul, Carlos Henrique D’Ângelo, explicou que o estado é uma rota estratégica para o tráfico devido à fronteira seca com o Paraguai. Segundo ele, a organização possuía uma logística robusta, com pilotos e caminhoneiros especializados no transporte dos entorpecentes.
Um dos marcos da investigação foi a apreensão, em 2020, de um helicóptero com 200 kg de cocaína em Naviraí (MS). Em 2023, um avião vindo do Paraguai foi interceptado pela FAB e abandonado após pouso forçado com 528 kg de cocaína a bordo. O piloto e o ajudante fugiram, mas um deles foi encontrado debilitado dias depois e confirmou a participação na operação.
Além da logística aérea, a quadrilha escondia drogas em caminhões de madeira com notas fiscais falsas. Madeireiras registradas em nomes de laranjas forneciam a documentação para acobertar o transporte. Empresas como a Amambai Madeiras Ltda., ligada ao investigado Cleyton José Marques de Carvalho, também preso, faziam parte da rede de apoio.
A aeronave interceptada pela FAB era registrada no nome de Derio Jamir Bervig, que alegou ter sido enganado para assinar os papéis devido a dificuldades financeiras. Segundo a investigação, o avião pertencia, na verdade, a Chicharõ. O hangar onde o avião foi visto pela última vez, no Paraná, pertencia ao empresário João Ramalho, também detido na operação.
A polícia acredita que Nélida não participava diretamente do transporte, mas coordenava a operação e era conselheira do irmão. Ela possuía plantações de maconha no Paraguai e vivia no Brasil com identidade falsa, onde chegou a manter uma loja de roupas em Mogi Guaçu (SP).
O criminólogo Juan Martens, da Universidad Nacional de Pilar, explicou que o mercado brasileiro é o destino principal das drogas produzidas no Paraguai. “Sem o Brasil, o crime paraguaio praticamente não teria para onde escoar a produção. São duas horas entre Canindeyú e o interior paulista, um dos maiores mercados consumidores do continente”, afirmou.
A defesa dos investigados começou a se manifestar. O advogado de João Ramalho afirmou que os indícios contra ele são frágeis. Já os representantes de Derio alegam que ele foi enganado e sofre de alcoolismo. Os advogados de Nélida e Tiquinho ainda não responderam até o fechamento desta reportagem.














