Quem trabalha com turismo no Rio está acostumado a lidar com imprevistos. Chuva, trânsito, mar fechado, alteração de horário, obras em atrativos e toda sorte de situação que faz parte de uma cidade viva e de uma operação que acontece todos os dias.
As obras no Cristo Redentor naturalmente trariam dificuldades. Com a mudança na logística de acesso e o intervalo maior entre as vans, a capacidade de visitação diminuiu. Isso era esperado. O que não pode ser tratado como normal é o que começa a acontecer quando o ingresso desaparece do canal oficial e reaparece na mão de quem está ali apenas para explorar o visitante.
Um ingresso que custa em torno de 87 reais chegou a ser oferecido por até 580 reais. Enquanto operadores tentam comprar pelos canais corretos, pagam impostos e muitas vezes precisam informar que não há disponibilidade para os seus passageiros, há gente vendendo ingresso na porta do monumento por cinco ou seis vezes o valor oficial.
Essa situação vai muito além do prejuízo de quem trabalha dentro das regras. O turista não sabe de quem é a responsabilidade. Ele não quer saber se o problema é do ICMBio, da concessionária, da fiscalização ou de qualquer outro órgão. Ele chega ao principal cartão-postal do Brasil, descobre que não há ingresso no canal oficial e encontra alguém cobrando um absurdo para deixá-lo entrar.
A experiência ruim fica com o Rio. É essa lembrança que ele leva para casa, comenta com amigos e publica nas redes sociais. Depois, nós que trabalhamos no receptivo precisamos explicar que a cidade é acolhedora, que vale a pena voltar e que existem empresas sérias fazendo o possível para que a viagem aconteça da melhor forma.
Não é aceitável que a falta de ingresso oficial abra espaço para a revenda irregular. É preciso entender como esses ingressos chegam até essas pessoas e, principalmente, garantir fiscalização. Não basta reduzir a capacidade de visitação sem criar um controle capaz de proteger quem compra de forma correta.
O Cristo Redentor continua sendo uma experiência única. As obras são necessárias e a melhoria da acessibilidade é importante. Mas o processo não pode transformar o visitante em alvo fácil e o operador regular em espectador de uma situação que prejudica a todos.
O turismo do Rio é construído todos os dias por quem vende a cidade, recebe o passageiro, organiza a logística e trabalha para que ele queira voltar. Cuidar do Cristo também é cuidar dessa imagem.
Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo















